Brado d'Armas
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Eu tinha treze anos quando me resolveram que eu iria estudar... mui longe... no povo... Minhas pilchas, a mãe passou pro irmão mais novo... As puas e o rebenque “de luz” pachola, meu pai entregou também...
Nesse tempo, entendia tudo e todos da minha gente... o linguajar nativo, o guapo entono de liberdade. De como a lida de campo lembrava aprontes pra luta. A cumplicidade campeira do trabalho desde o relincho de baguais até o tilintar cadenciado das esporas. E os ideais mais simples tinham atropelos de cascos, na fartura! Havia respeito e dignidade à memória da tradição. Se enfrenava a defesa irmanada de idéias que honravam vidas, onde a lei se emponchava nestas razões que pariam tauras... E essa magia legada me fazia sorrir! E eu era feliz!
Mas chegou o dia da partida. Os vizinhos mais velhos encorajando... - Volta doutor! Professor! Militar! Ou até padre! É dos nossos! Tem brado d'armas, o piá! E os tios: - Escreva... mande notícias. Se “percisá” de alguma coisa, também... E o pai: - Filho, seja sempre honesto, leal e franco! E os avós: - Quando te largarem de férias... visita a gente! O flete esperança ia encilhado, embodocado por dentro, como se rosetas lonqueassem a alma na despedida.
Depois... quartiei rondas nas letras, repontei horizontes nos livros com ganas de conhecer melhor os homens e o mundo. Tropiei nas ciências, me encontrei pedaços. No rodeio dos números me achei um zero. Cada dia entendia menos... Galopei nos verbos até o “perder identidade”. Campiei na história e topei um chasque: “Deus fez o campo, os homens fizeram a cidade”. Perdido nela, meu potro saudade relinchava embretando solidão.
Nunca mais voltei pra minha gente. Nas noites escutava as vozes dos poetas gaúchos, também saudosos, que em bordoneios sentidos e no ressongar aflito da cordeona pediam socorro ao infinito... Com os mesmos anseios fui bebendo a luz das estrelas, com o silencio do sereno, em rondas sem escalas. De tanto olhar pro céu nestas noites do pampa, minha alma campeira criou asas... e fui subindo... subindo... cruzei pelas “Três-marias” do pajé charrua... cheguei até a “Boieira”. E vi que a labareda é formada por tições de ideais e sentimentos da alma gaúcha! Cerquita do fogo... na roda de chimarrão... muitos da minha gente... Havia escoltas de centauros de prontidão, com bandeiras farroupilhas em pontas de lanças. E numa tarca, os brasões e legendas de cada herói do pampa...
O Senhor Tempo, patrão de todos os mistérios e segredos, estava pilchado... E seus olhos eram espelhos! Neles, me vi o piá de treze anos, antes da partida. E só a alegria me sorria ... refletida.. E as escoltas clamavam: - Brado D'armas. Volta e repita – Brado D'armas. Como ave grande, com asas de aurora, hoje rumbeio para minha gente, na recoluta de amor pela Querência, com Brado D'armas... ... Brado D'armas!