Os Vês do Vento
Vem vem vem Vento vem... Vem vem vem Vento vem...
Vês... ...o elemento que não vejo é o espelho dos meus olhos...
Rosa-dos-ventos do pensamento, versos que se vem de todos os cantos e se perdem... nos perdemos...
Saudade que vem em ventos avoengos arrebentou a piola e levou embora todas as minhas pandorgas...
Lembro da “Voz do Vento”¹ pelas frestas de um livro amarelo de esquecimento, remoinho de papéis avulsos pelos pátios da infância revolvendo a poeira da lembrança...
Cantiga de roda, ciranda. Floreio de prenda, sarandeio de saias e tranças na contradança com os lenços vermelhos e os palas de seda.
O Vento voa... A vida voa... Seguindo a passos lentos e eternamente correndo. É um galope certeiro com a pressa de um chasque; e a calmaria do tropeiro que mede o tempo em braças de sol.
Vento da “Rua dos cata-ventos”². Pássaros em flor e borboletas batendo asas de pétala. Vento em todas as veredas...
É a vida sem limites movida apenas pelo impulso de ir adiante. Redesenha o rosto das rochas com a paciência dos deuses.
Vai espalhando sementes que sobem do chão e não chegam ao céu; e sementes de chuva que sempre estão entre o céu e o chão. Sementes que se encontram dentro da terra para o mistério da floração.
O Vento tem o faro da atmosfera... Cevadura seiva. Levedura leiva. Dura poeira, erva velha...
É o ar que o mundo respira. O ritmo das correntes marítimas... A vida que vira, revira e não pára. E a gente espera. A gente não pára...
O Vento retempera o nosso apego: – Que bons ventos te trazem meu amigo?
Viver ao sabor do Vento? Perguntem ao andarengo!...
Eu sei porque também ando em círculos e vou longe e volto ao início.
Evoluindo Involuindo Indo
E, do Vento, levo a palavra e o verbo. Faço poemas que reverberam pelo universo.
E agora jogo ao Vento meus versos e encho meu peito... E enxergo.
Nós mesmos nos vemos nos “Vês do Vento”.
Viajando em navios e caravelas, apagando o pavio das velas navegando fins e infinitos neste flete de sonho...
Esse Vento que nunca “dá um tempo”... Que se faz de morto, mas está sesteando debaixo das pedras.
De vez em quando vai sonambulando e se faz de fantasma pela noite penada “sombrassuntando” as estâncias.
O Vento é um potro selvagem rufando cascos nos descampados. “El Viento” de “los temblores” de legueros e galopes...
Sopra o presságio da seca; passa e deixa rastros de tormenta. Perpassa a alma da pampa.
Vento maleva, venta rasgada Vento vago, pé-de-vento, Vendaval. Turbilhão e turbulência. Em que época teria acontecido a grande viração que virou o guarda-chuva das araucárias?
Sei que os temporais antecedem os tempos de paz.
É previsto o dilúvio... Mas é um alívio... O Vento horizontal envida a chuva vertical a ser diagonal.
Que o Vento vente eternamente! Velho Vento verde que verte... Rio de ar, escarcéu, respiração de Deus.
Vento, que ensinou o cachorro a uivar; Vento, que ensinou ao índio o grito sapucay...
Vento-cancioneiro bordoneando alambrados, ramalhando os verdes do mar da pampa...
Generoso Vento levantando o vestido das gurias bonitas. ou tirando som de algum violão empenado...
Solando em sol no sol que sai das venezianas, zunindo nas ruas, batendo nas portas.
e fazendo leve a lua. O Vento acaricia as coxilhas e os pastos viram vírgulas.
O Vento se inventa, mostra a cara do dia, se reinventa, improvisa uma brisa, lava a alma, traz a voz dos avós...
...os Ventos gerais do hemisfério sul... ...Velas do Seival, céu do Cerro do Jarau!
Minuano, frio da terra do fogo, gelo seco que vem dos Andes e faz a gente esfregar as mãos...
De mate pronto! O campeiro sempre espera o minuano de mate pronto...
O Vento é o cavalo de todos os pêlos. Pastor de nuvens em pele de cordeiro.
Senhor dos caminhos!
Também tenho o fado de dividir-me em trevos. Vento! Estás me ouvindo? Me aleva no enlevo de tuas asas.
Sou página... Folheia-me...
Vamos!
Me faz página virada perdida pelos outonos.
Vento, me aleva!
Me faz uma erva, uma clava pelos vales onde dança a tua valsa...
Música maestro!
Quero um festival de vozes e flautas fluentes. Sei, que, de um claro de céu fizeste o clarinete. Trouxeste, não sei da onde, o fole na garupa, o regalo pra gaita que era triste porque era muda.
Vento reboleando... Reboando... Renovando.
Na primavera nos leva em flores novinhas em folha.
Vaga-lume, vai-não-vai, vaivém, vai-volta, Vento vivalma.
Fluxo de flechas. Vento que envolve e atravessa.
Vento para ver e remover-se ver-se varrido.
Vento que não fecha, nem fixa, nem freia... Não se cava, não tem cova, não trava nem crava raiz nem faca.
O Vento ensinou a chaleira a chiar!
A fumaça é a forma do Vento; e o Vento é a forma do fogo e o brilho em seus olhos rubros.
Sou o Vento Sul, o Vento que vai pro mundo.
Vento para quem sabe voltar e para quem foi “lejos” sem sair do lugar. Vento, voagem de vida, revoada... “Ô de casa”! O Vento também é chegada, mas fica lá do lado de fora. E eu deixo a porta fechada.