De Visita
Antes da aurora recolher o luto, um galo “bruxo”, ressuscitou “as casa”. Trouxe de volta água à cambona e um mate gordo para clarear as brasas. ... Outro domingo de um agosto gasto que vem gelado - qual amor ausente... Sorvo “despacio”, a revirar o tempo e o que é passado já se faz presente...
O braseiro vasto agranda o chiado, como pedindo: silêncio e respeito. A alma se aquieta, entendendo o recado, indagando o porquê desta ânsia no peito...
Talvez por saber dos causos antigos, que o fogo ao chiar anuncia chegada de alguma visita, da há muito distante, que por força do tempo nos foi afastada...
Um rangir de cancela quebrou a quietude do posto da estância, nessa madrugada. Chamando pra si, tamanha atenção, que até meu olhar perdeu-se na estrada...
De longe a silhueta de dois negros vultos que assim por distante, pequena parece, mas que se agranda e estampa a figura por conta dos passos que aos poucos investe. Um mouro crioulo “em pêlo e de tiro” ao lado um ruano “muy” bem aperado, que pelo entono e o embolo do tranco deixou-me a certeza de “flor de domado”.
Foi quando então reconheci o semblante, por conta do vento que alçou-lhe o sombreiro notei em seus olhos, um certo “clarão”: luziam bem mais que o próprio palheiro...
Por isso entendi o silêncio do cusco, que alçou as orelhas, mas seguiu ao meu lado, - O instinto enxerga bem mais que visão e não late pra “aqueles” do seu agrado!
Boleou a perna com alma e com jeito e “rumbiou” arrastando esporas no chão, um amigo que o tempo ainda permite que a alma e a voz lhe chamem de irmão. Sorrisos sinceros moldaram-se aos rostos e a mesma verdade no abraço cinchado, depois, cada um reviveu os seus olhos, nos outros dois, assim, espelhados!
As cinchas já frouxas, os pingos à soga e o frio insistindo em mandar-nos pra dentro pra com gosto, jujarmos um mate novo co’a lembrança dos causos, dos velhos tempos. Risadas e vozes, fumaças e estalos se mesclam, quebrando, a paz do galpão só o cusco coleira, agora cochila mas põe-se em alerta, no estourar dum tição.
A guitarra que há dias andava calada guardando o seu canto, num canto do galpão, vem dar “colo” a um corpo e uma alma “embujada”, traduzindo em cantiga o mistério das mãos. Neste instante o silêncio tornou a imperar para ouvir as verdades de um coração, até mesmo o fogo cessou os estalos e Rio Grande se ouviu no ecoar da canção!
Com a vista nublada: de emoção e fumaça, picando um naco já quase no fim, um voz meio rouca e um tanto embargada ao cevar mais um mate, sentenciou assim:
- A terra nos cria, o mundo nos separa, mas a amizade é o esteio da vida, pra mim! E se até a guitarra dá-te às costas no abraço é só pra que cantes tua alma e fim...
A cuia morena cumpriu o seu rito, de irmanar sentimentos, tão simples e puros, e mostrou que os amigos, são os olhos da alma, que a vida nos deu pra enxergamos no escuro!
O mate de estribo encilhou o ruano que aos poucos sumia lá na invernada... Ficou o morito, outro potro pra doma, e se foi a certeza “de tiro” na estrada: - Que embora o tempo, por mais que separe, não apaga a essência que herdamos um dia, pois até a guitarra com as cordas distantes, ao sonar um acorde, ecoa... harmonia!