Alma em Verso
Poesia

Exaltação Farroupilha

José Hilário Retamozzo

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Olha estas mãos afeitas ao manejo das rédeas e das lanças e do arado - trilogia dos trastes campesinos de onde surgiram rumos e destinos de um povo que se orgulha do passado.

... Inda reboam pelos ares, soltas, as notas libertárias de um clarim: - Nico Ribeiro está chamando à Glória a página imortal de nossa História e a peonada guerreira de Jardim.

É o recomeço do decênio heróico envolto em lances de emoção e assombros... Os ponchos velhos acenando, em fiapos, a legenda dos épicos Farrapos e a liberdade agigantando os ombros.

Bento Gonçalves... Canabarro... Onofre... Souza Netto e o sonho do Seival; - República dos bravos, andarilha, instalando o porvir sobre a coxilha e a cada pouso nova Capital...

República de sonho e rebeldia, efêmera e no entanto duradoura; - viveu dez anos, mas se faz, ainda, a lição imortal que nunca finda à vossa, à nossa e à geração vindoura.

Hoje, por isso, as nossas almas rasgam o véu do tempo, que recobre a glória dos que souberam, com amor e afinco, dar-nos a herança deste 35 e a intransigência de uma trajetória.

Andaremos além das nossas horas emponchados na luz desses exemplos, sob o batismo secular das auras que conduziram as legiões de tauras e ainda abençoam religiões e templos.

O Povo, a Pátria - as religiões mais altas: a liberdade - o consagrado altar, e entre arrepios de convulsões e alarmas, as nossas mãos a sustentar as armas pelo Rio Grande que nos faz sonhar.

Somos os ramos - agitadas asas de ensangüentadas ocasiões em rubro, ora brindando turbilhões de flores, ou sacudindo as esgalhadas dores sob a explosão primaveril de outubro.

E vós que sois deste Rio Grande herdeiros contemplai este século que passa e cinzelai sobre a emoção dos dias a flama das sagradas rebeldias - ainda o cerne espiritual da raça.

Reconhecemos ir sumindo, aos poucos, pelos caminhos das modernas rotas, nossa estirpe de bravos cavaleiros que hoje vivem, talvez, os derradeiros momentos em que possa andar de botas.

Daí pensarmos redobradas vezes em fugir da alienígena influência, e num pleonasmo já vazio de luxo, ensinar o gaúcho a ser gaúcho e à querência o valor de uma querência.

Em vós, crianças das auroras claras ensangüentadas do Ibirapuitã, repousa o sonho, destas almas guaxas, de ainda ver o Rio Grande de bombachas ao abrir as coivaras do amanhã!