Soneto das Saudades
I Nos versos longos falta teu cheiro, Na cama só... o calor das horas, A falta inquieta calça as esporas Deixando em dor sem teus beijos.
Estendo um mate a capricho, pra espera... Mas tua ausência enfim, persiste, O coração impaciente queima triste, E a água mansamente esfria com a erva.
No ronco estrondoso que vem bomba, A erva lavada aos poucos tomba Sons de um peito que emana em revolta,
Que só se acalma quando noto Que na alma, no tempo e nas fotos, Embora triste o adeus, há a volta.
II
Regresso sobre o lombo do gateado, Que “das casa” também sente saudade Sabe esse amigo, as contrariedades, De quem vive a camperear abichornado.
Feito o dia que ausente espera a noite, E o cavalete que aguarda os arreios, Indiferente a lembrança busca outros meios, Pra soltar as amarras dos meus açoites.
Até o campo sente falta do bater de patas, Do laço espichado, que certeiro se destapa Lustrando cerrado nas aspas de alguma pampa,
As esporas esperam ansiosas os garrões, E as baldas matreiras dos redomões, Num fim de lida quando o astro rei se acampa.
III
É tanta saudade que guardo ao peito, Que não sei ao certo como conter, Não será mais fácil dela esquecer? Ou quem sabe se encontra outro jeito?
Se adorna das horas, essa parceira, Clamando meus carinhos... e atenção, Espera ansiosa seu lugar no coração, Que seu destino é do meu ser companheira.
Frente ao vazio das noites enluaradas, Anda meu sonho a campear uma estrada, Alargando o horizonte dos anseios,
Leva a saudade apresilhada a encilha, O silencio a garupa se enforquilha, E a paixão guiando as cambas do freio.
IV
Será que a maleva no amanhã se acampa? E se fará presente num futuro incerto? Ser lua cheia em meu céu aberto, E flor do campo que a beleza encanta?
Será que ao peito ela fará morada? E será amiga pras horas de ausência? Pras incertezas a acolhedora querência, Pro horizonte a sede de estrada...
Na geada que há de adonar-se das melenas, Encontrarei a saudade sorrindo serena? Ou a simples lembrança da sua presença?
Nas rugas que o tempo marcou a fio, O passado inquieto, anda arredio! Que a saudade amanhã! faz toda diferença.