Tio Manduca
Publicado em
O velho Rio Urugüai sabe a história que a correnteza levou pra bem longe...
Era verão, noite buena pra pescar de espinhel! lua grande emponchando a terra.
Tio Manduca, nos seus muitos janeiros, bem vividos, tamancos de sola gasta, bombacha arremangada, chapéu roto, contava história e ria! Havia até quem dissesse que ele era um anjo e, quem sabe? Angüera...
Melena branca e farta, crespa feito nuvens empelegadas. nos olhos, o brilho e a certeza de ter sido feliz como balseiro. Pra que mais, se até os espelhos tinham prazer em refletir sua imagem?
Oito filhos homens, todos payadores e violeiros. Ele? Não tocava nem cantava nada. Pra que?
Era um sábio o Tio Manduca! Dizia que: “ir contra as mulheres é negar as fases da lua”.
A festa do seu aniversário varava a noite... era assim cada ano, todos sabiam! Naquele janeiro, o vizindário reuniu-se mais cedo e, desde a tardinha, o rancho, encravado na barranca do Uruguai ficou pequeno pra tanta gente...
Tio Manduca contou histórias divertidas, falou de “Chandarmes”, de “Navais”, do tempo em que, rio baixo conduzia toras de madeira que dariam tábuas para moradas de “vivos e de mortos”...
Quando a noite já ia alta, a festa mui animada, alguém gritou: “E dos seus amores, não conta nada, Tio Manduca?”
Pela primeira vez os olhos do velho encheram-se de lágrimas e uma voz rouca, quase um lamento, sussurrou: “Amor, só tive um e o rio levou na correnteza da enchente... mas me deixou os filhos que não querem saber de balsas!” E, já sorrindo,falou pro filho: “Canta, meu filho, que quem canta seus males espanta...”
A festança foi até a madrugada entre payadas, mates, versos e milongas bem choradas...
Quando todos se foram Tio Manduca entrou no velho caíque e saiu rio abaixo: noite buena pra pescar de espinhel! Lua grande emponchando a terra. E sobre as águas prateadas do velho Rio Uruguai baila, aos lhos saudosos do balseiro, o vulto da amada que, há muitos anos, ele viu ser engolida pela correnteza da enchente...
De manhã, sol alto, no fundo do caíque, apoitado num remanço, entre uns sarandis, com uma mão ainda tocando a água, um corpo sem vida: era Tio Manduca. Melena branca, bombacha arremangada, e um sorriso largo enfeitando a morte, como enfeitou a vida!