Das Lembranças Que Trago
Esta garoa fria e fina, que cai fazendo barulho no zinco do meu galpão. E um vento meio oitavado, balança, de encontro à janela os galhos do cinamomo como batendo pra entrar.
Lá fora: um galo cochincho, abre o peito num repique dando ô de casa pra o frio. E na cocheira: meu pingo, bate os cascos e dá um relincho, como para me acordar. Mal sabe ele que a insônia me tirou cedo da cama não me deixando dormir.
Meu poncho ali pendurado, e o companheiro do mate, neste começo de dia que custa em querer clarear. Num canto as botas molhadas, da chuva que veio ontem... E as esporas embarreadas de tanto arrastar no chão.
Refaço meus planos, pensando na lida, de um dia que chega querendo findar. O amargo do mate de mais de uma hora, renova o elemento gaúcho que sou... E a chama amarela, que sobe do fogo clareia esperanças de um dia melhor. Aqui neste rancho, que fiz no arrebalde de alguma cidade, imito meu pago que um dia deixei. A dor da lembrança transborda no peito e reflete no espelho mostrando o sujeito que me transformei.
Plantei cinamomo ao redor do rancho, galpão e cocheira também construí. Lembrando meu pago... que deixei no abandono na triste esperança de um dia voltar.
Mas mateio solito, remoendo agonia, sem ter companhia para chimarrear. Apenas o pingo, o galo e o cachorro, são meus companheiros enquanto espero o dia clarear.
Um sol colorado por trás dessas nuvens, dá uma pausa à chuva e clareia o escuro da barra do dia que custa a chegar. Porém mais um dia me leva ao trabalho, entre prédios e ruas aqui deste lugar.
Meus nervos de aço suportam a dor, ao ver as lavouras que o campo virou. As mãos de campeiro carregam argamassa mesclado à poeiras que sobem do chão. O som do meu pinho que às vezes dedilho, ao redor do fogo daquele galpão. Refazem meu pago em minha memória, tocando milongas e chamarras campeiras, mescladas com cuias Do meu chimarrão.
Encilho meu pingo e ao longe me vou, ao tranco...solito, em nova jornada. As minhas estradas são ruas calçadas sem berro de touros, sem gado, sem nada...
E assim vou levando e a vida me leva, a um rumo incerto para algum lugar. Levando lembranças que guardo comigo nas varas do peito e no meu coração.
Mas, a vida segue e em minhas fronteiras demarco o limite que quero chegar. E nesta cidade de ruas e prédios aguardo o dia que eu possa voltar.