El Negro
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Amanheceu cerrado, escuro. Poucos entendem que a relação - peão e potro - Vento frio frestas adentro. Não mais se desfaz. A confiança é mútua, O velho galpão é testemunha. O auge não passa de um momento. Estrebaria cheia, fartos pastos, Regalo da vida, surpresa da morte. Muitas são as intenções, poucas as certezas. O estouro do gado é contido com energia, No ventre a razão de tanta inquietude: A galhardia daquele potro negro e seu ginete, “Este será o melhor da estância!”. Vê o fim num tropeço na coxilha. De nublado à chuva caminha o dia A pata quebrou, uma decisão tem de ser tomada. E ao chegar da escuridão, a vida. El Negro sabe, a dor voltou ainda mais forte. Mal respira e logo tem de estar em pé Quanto vale a vida de um animal? Cambaleante se sustenta, é só o começo. “Apenas mais um potro desafortunado” Ao raiar do dia dá os primeiros passos, É a fala do patrão. E ao peão, Sente o cheiro do pago onde nasceu Deixa a missão de conduzir ao firmamento E o gelar dessa terra testa a sua força. Aquele seu irmão de patas. O olhar do patrão sela o destino: Nos olhos, a ternura marejada. Escuro como a noite, Nas mãos, o destino desse companheiro. Uma estrela estampada na testa, A noite cai sem a coragem habitual... “El Negro” foi batizado. Na testa, a estrela d’Alva anuncia: A vida do potro é dura; a origem, marcada a ferro. A dor se foi, El Negro também. Sorte ser tratado como vencedor. À mesa do patrão, uma carta, poucas palavras: Mas logo vem o desmame, “Ao senhor peço desculpas, a Deus O calor materno, não mais sentirá. Peço perdão. Sua alma está nas mãos de um homem Tirei a vida de um irmão de patas Que, por meio da dor, impõe sua vontade. Que mal sabia o quão pouco valia. O negro se entrega, cansado, machucado, Não mais farei doer”. Foi dobrado pela dita inteligência. O peão tomou o rumo da porteira Levando com ele a esperança do potro negro. O respeito criado no corte da espora É sólido e permanente, Senhores, ao menos respeito! De onde não se esperava sequer piedade Guardemos no peito um tantinho de Vem o carinho e o trato. Honra e gratidão a quem Aquele peão antes carrasco, Sente dor desde o início. Torna-se amigo inseparável, protetor, E quando morre deixa nas mãos do peão Parece querer compensar tanto sofrimento. O peso da sua alma benevolente e mansa. Agora, suas vidas estão unidas, Defendidas nas patas ou Senhores, por que a morte? Na ponta da adaga, se preciso for. A confiança construída não pode Perecer de forma tão silente. Mas quem disse que é fácil a vida do potro? A peleja é pela vida, não dominamos o tempo. Seu temperamento é forjado em brasas, Companheiros somos, até o tombo final, Sabe que seu destino não pertence a ninguém. Curtidos da lida e soltos ao vento. A estância nunca tinha visto Tamanha força e sincronia. Paleteada, laço e reparte do gado. Seu peão, já judiado do tempo, Sequer usa as esporas que tanto lhe cortaram.