E a Terra Não Esqueceu
Publicado em
Sob meus pés o silêncio, Sobe meus pés o destino De gerações estraviadas Pelas pateadas do tempo . Sob meus pés a verdade, Toda a verdade de um povo Que procurou sobre a terra Seus sonhos de liberdade.
A terra chorou baixinho Dores bem mais que profundas... A terra guardou lembranças Que jamais pôde apagar. Sob meus pés, desatinos De campos largos e rubros... Sob meus pés as histórias Que o homem tenta negar.
E a terra não esqueceu A dor de um tempo sem Deus.
A terra tem cicatrizes... Mapas de uma geografia Que certamente não foi Traçada por mão de Deus Foi traçada pelas armas, Bem empunhadas por feras Que pelo correr das eras Ditaram rumos e leis.
E desenharam fronteiras Num pampa sem alambrados... E dominaram a terra Com estâncias e povoados. Catequizaram o índio E suas xucras razões... Com sete cruzes ergueram Sete povos das missões.
Depois golpearam sem dó, Reduzindo o sangue em pó O sonho das reduções.
A terra lembra piquetes De imponentes coronéis... Inventando itinerários Em seus garbosos corcéis. Tantos galões, tantas glórias, Tanta paixão e vitórias Que escreveram a história Nos mais vistosos papéis.
Pena que a pena que escreve a história Seja regida pelas mãos sem pena Dos que comandam os canhões e réis.
E a terra não esqueceu A dor de um tempo sem Deus.
E são patas de cavalos, E são palas retalhados... A sina vira ferida E o puro vira pecado. A terra bebe do sangue Mesmo repugnando o gosto... As feras matam a sede E a vida perde seu posto
Já não palpita de pureza a terra santa De tanto o homem macular seu relicário; São tantas almas extraviadas do inventário De tantas guerras e barbáries pelo pampa.
Quando a razão já não floresce da garganta E então desperta o furor do coração, É rio de lava que incandesce pelas veias E faz da morte sua maior erupção.
A terra engasga, soluça... Cada golpe, cada corte É uma semente sem vida Que se planta, num ritual. Idéias, brasões, motivos, Todos tem, todos sustentam... Um a um, todos inventam Mil razões pra o próprio mal.
A terra chora de dor... De todo o sangue jorrado Na história do nosso Estado A terra sabe o sabor.
Os talhos recebidos pela terra Remendam, mas jamais se apagarão... Em cada cicatriz há uma lembrança Do homem massacrando seus irmãos.
A terra não esqueceu A dor de um tempo sem Deus.
Sob meus pés, desalentas E as formas de uma inscrição Que conta a história do chão No triste idioma dos ventos.
Mas o que surge das cinzas Quando as tristezas se vão E aviva a alma de um povo Que ainda sonha demais? O que resurge luzindo Do fundo da escuridão Trazendo lições de vida De seus turvos memórias?
É a própria terra senhores! É a terra, que se refaz, Clamando em suas cicatrizes. Que a história não se eternize A sete palmos da paz!