O Velho Madrugador
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Como um fantasma, vagando Pelo silêncio das peças Da casa, onde a família, Mulher, filhos e netos, Dormiam, matando o sono Numa noite de vigília; ( Vigília atentas ao filme Que a televisão apresentou ), O velho madrugador, Já farto de chimarrão, De ouvir rádio, ler jornais, Vagueia assim, sem rumo, Por entre quatro paredes; Prisão que a doença - velhice Lhe impusera pela culpa De ter avançado além Dos setenta anos ou mais.
Sufocado ali por dentro, Às vezes chega à janela, E como uma sentinela, Espreitando o movimento, Termina perdendo o olhar Numa nesga de campo, ao longe, Onde um pedaço de terra, Num terreno inda baldio, Se ficou, fazendo preço Pra o proprietário avarento.
E o velho fica por tempo Na nesga dessa janela... Seu pensamento então voa Nas asas de uma saudade Que sempre assim, nessa idade, O homem tem que sentir. Uns acham que não convém Recordar coisa passada, Que não adianta de nada, Porque o que se foi, acabou! Mas quem há de certo dia Se ver livre dessa pena? Se o sentimento é um bagual Que ninguém doma ou sofrena.
Quem ri porque os velhos Vivem o passado a lembrar, Um dia será passado, E também há de chorar.
Por isso o veterano, Que acordou de madrugada Pra vigília do seu mate, Pra angústia do seu nada, Vagueia pelo silêncio Da casa adormecida, Como uma sombra perdida, Como uma alma penada.
E, sem ter o que fazer E nem com quem conversar, Cansado de bater cascos Pelos cantos da parede, Exausto de recordar, Enraivecido pelo tédio; Se recosta na poltrona Para dormir outra vez. Porque: pra quem sofre de velho, ( E a velhice não tem cura ), Entende que nessa altura, Dormir é o melhor remédio!