Destino de Prenda
Publicado em
Fora parida na estância Por parteira de mão boa. Cresceu menina bonita, Com seu vestido de chita Atormentava os piás, E os longos cabelos negros Quase cobrindo a cintura, Realçavam a formosura Daqueles olhos de paz.
Aprendeu ainda cedo Os trabalhos da fazenda, E trabalhou desde nova Acompanhando a patroa, Que por ser mãe, e mãe boa Aconselhava a prendinha, Afora dois piazitos, Ainda bem pequenitos, Paridos tempos depois.
E os anos foram passando E os longos cabelos negros Da moça de olhos de paz Foram crescendo com ela. Transformou-se na donzela Mais bonita do rincão. E a peonada da querência Passaram a sonhar um dia Ter a prenda como esposa, Não se importando com o preço.
Até mesmo as aventuras, Aquelas mais perigosas, Com redomões, com mestiços, Tinha peão que fazia Como parte da conquista. Outros, nos dias de festa, Iam exibir os seus trajes Encomendados de longe Para a ocasião especial.
Mas foi numa dessas noites Que a moça perdeu o sono, Pensando coisas que nunca Imaginava pensar: Ir-se embora pra cidade Aprender a elegância, Que a vida simples da estância Não poderia lhe dar.
O pai ficou espantado Com as idéias da filha, Que amanheceu nesse dia E que agora ia contando Na hora do chimarrão, A mãe caiu em soluços, Premeditando o destino Da filha, que era o seu mimo, Criada com tanto afeto, Que vinha agora arrancar-lhe O pranto do coração.
Foi-se embora, e a cidade, Grande como ela queria, Aos poucos fora surgindo Diante dos olhos bonitos Acostumados a ver Os horizontes azuis Beijando as gramas da pampa. Cortou seus cabelos negros E as tranças mandou pra casa Como lembrança à família, Junto ao vestido de chita.
Mas não passou muito tempo, E a moça de fino trato Outrora simples bonita Batia em portas estranhas Pedindo abrigo pra noite, E carregando nos braços Um filho que ela mesma, Em desespero profundo, Confessava a todo mundo Não saber quem era o pai. E após este, veio outro, Depois outro, e outros mais. Ninguém mais lhe abria a porta, Ninguém mais lhe dava pouso, E ela rolou na calçada, Nas noites frias, molhadas Vestida em trapos imundos, E os filhos... Lhes dava o mundo, E o próprio mundo os tirava.
Indiferente aos que cruzam Nas horas mortas da noite, Ela se encolhe em suas vestes Para dormir ao relento. Satisfez os seus caprichos, Se educou na sociedade; E há de morrer na cidade, Parindo filhos do vento.