De Barro Moldei Meu Verso - Marcelo D'Ávila
17º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
De barro moldei meu verso: Do mesmo barro pisado Pelos caminhos das tropas, Sovado de pata e casco Pelos fundões da campanha No rumo incerto das grotas.
Do mesmo barro vermelho Com que se ergueram paredes De catedrais missioneiras Quando o sonido de inúbias Reverberava nos campos Chamando a raça guerreira.
Meu verso, por rude e simples, Foi forjado nas barrancas Com templa de areia e rio. É mescla da água da chuva Com a terra seca e judiada Depois dos meses de estio.
Tem a justa natureza Da argila à qual mãos zelosas Dão mil formas diferentes: Em sua mudança constante Tem fúria de correnteza E a calma paz das vertentes.
No solo fértil da arte Florescem rimas terrunhas Por onde o poema lavra E o barro macio do verbo Torna-se sólido verso Na olaria da palavra.
Ao modo do João Barreiro Que traz a lama no bico Pra erguer sua moradia Faço da greda e do húmus A base fundamental Pra criar minha poesia.
Escrevo nas linhas tortas
Que as rodas das carretas Riscam no barro da estrada Eternizando, a lo largo, Cada estrofe que componho Nesta pauta improvisada.
De barro moldei meu verso: Da mesma matéria bruta Dos ranchos pobres e tristes. E por ter igual origem - Nas vilas e arrabaldes - Bem como eles, resiste!
Lodo de leito de açude, Lama de terra vermelha, Rastros de poeira e geada - Assim escrevo meu verso: Terrunho, simples e rude - Feito de barro - e mais nada!