Das Sombras de Um Galpão Velho
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Ponteou de longe o agosto pras bandas dessa fronteira trazendo um tempo escuro sem estrelas madrugueiras. E nuvens do mesmo pêlo como se fosse uma tropa tocada sem sinuelo. Veio de longe esse agosto seguindo o mesmo rastro das cicatrizes que a chuva deixou por sob estes pastos.
Sobrou tempo pra o machado - contra o angico no chão – campear um bom pai-de-fogo pras horas de precisão.
No galpão as labaredas... fogueando velhas lembranças comiam o cerne do angico com suas línguas em danças... e contra a parede, sombreava um vulto feito um ginete arreios, bancos, aperos e o vazio de um cavalete.
Me lembro se fosse hoje quando foi Juca Mulato; Enforquilhou-se num upa: arreios no mouro-pampa uma mala de garupa... poncho emalado, cambona, o doze braças, um par de esporas, sua humildade e cordeona.
Partiu como se voltasse nem se despediu dos seus. Pegou o doradilho de tiro nos disse apenas: adeus... ralhou com o baio colera e só olhou pra estância quando apeiou na porteira.
Ao longe ouviam-se gritos como ponteasse uma tropa talvez a dos seus recuerdos das suas saudades e medos. Que a gente por onde for... num ofício tropeador tem que levá-las por diante... mesmo que sejam distantes as léguas do corredor.
Nunca mais se soube histórias nem um “cuento”, nem uma prosa que falasse do velhito.
Quem sabe, morreu solito changueando uns pila miúdo por estes bretes povoeiros que se perdem pelo mundo.
Quem sabe já estará noutro longe das lidas e potros... onde a vida valha mais do que a ascensão do dinheiro; Um lugar onde parceiros “gerveiem” com a mesma erva... pois o destino reserva um lugar bueno aos campeiros.
Quem sabe por ser gaudério - e sempre quis ser assim – “pegô” o rumo de uma estrada dessas de léguas cansadas que parecem não ter fim.
E hoje, entre um mate e outro longe de lidas e potros lembrei deste velho amigo que parecia estar perto mateando junto comigo.
Sua presença “as vez” gaviona... quando no rádio de pilhas... escuto o florear d’uma cordeona.
- Mas bota agosto gelado... de desabar o poncho negro. O fogo segue comendo o cerne do velho angico... e incendiando a escuridão sombreava minhas lembranças na parede do galpão...
Nem sei porque me lembrei do amigo Juca, se há tempo olhou o rumo dos ventos enforquilhou-se e partiu... mas hoje o fogo clareando aos poucos fui recordando e aos poucos foi sombreando um cavalete vazio!!