Ama de Leite
Mãe, por certo, é quem ama, empresta, do colo, o ninho, doa o seio com carinho quando o destino lhe chama. Quem sabe da vida a trama que a sorte nos compõe? Quem escolhe ou impõe à alma de uma criança, em sua mais tenra infância, quem deve chamar de mãe?
Aconchegada, em deleite, uma criança branca a sua fome estanca na negra ama de leite. Ato de comum aceite, uma à outra se regala enquanto no colo embala mais um filho do patrão Nega Maria que, em vão, se esvanece da senzala.
Em seu âmago ela sabe que o filho não lhe pertence, porém nada lhe convence que o amor que mal lhe cabe no peito um dia acabe. E a criança, por quebranto, parece entender seu canto quando ela cantarola cantigas de Mãe Angola para mitigar seu pranto.
Por vezes, em desvario, recorda a 'Terra Mãe' - onde o horizonte transpõe passado e mar bravio, sobrevive ao extravio de uma vida escravizada sua alma imaculada - e o navio negreiro, prenúncio do cativeiro de sua sorte malgrada.
No compasso do acalanto verte do seio o leite da negra ama de leite ao pequeno em seu manto, um retrato em preto e branco do amor e suas mazelas tal a lua e as estrelas que, no céu da noite escura, pincelam terna pintura aos olhos que sabem vê-la.
"Vende-se uma preta" assim dizia um jornal, "bem saudável, sem igual, própria pra ama de peito. Pras lides sempre a preceito, carrega os peitos cheios, pois um rebento lhe veio há pouco tempo aos braços. Acolhe, em seu abraço, herdeiros de fazendeiros"
Mãe, por certo, é quem ama e se doa em oferenda... Cumprindo a sua senda, Nega Maria, mucama. E, ainda hoje, a ama, depois de tanto açoite, com seu vestido de noite, acalanta a imensidão... Negra mãe de uma nação, Mãe Preta, ama de leite!