Alma em Verso
Poesia

8. Romance de Pampa e Sol

Danilo Kuhn

I Sinos do Verso GaúchoPublicado em

Despacito, o sol desnudava à pampa com carícias mansas e luzidias que pouco a pouco se tornavam amplas, lhe trazendo matizes de alegria, iluminando os campos deste amor quando noite se transformava em dia.

O sol que suspirava em seu rubor que à paixão denunciava a cada afago aos poucos revelava a pampa em flor, e a noite fria com seu poncho amargo ia dando lugar à pampa desnuda, plena de todos os amores do pago.

À luz do amor, o iluminado muda sua tez que agora resplandece, brilha, quando antes era opaca e sisuda como as flores, que na noite das trilhas se ocultam da visão do caminhante, mas que ao sol, lhe acenam das coxilhas.

Assim, a pampa, em pele verdejante, exalava dos poros seu perfume enquanto o sol, mais e mais radiante, estendia à sua amada tal lume que, ao esmaecerem, as demais plagas deste romance sentiam ciúme.

E o sol percorria as planuras largas, se mirava vaidoso nos açudes, roubava beijos da água das sangas, e a pampa encantava aos homens mais rudes, versejando amor em suave canção soprada ao vento, que no céu se funde:

terra e céu, pampa e sol, agora são, ao terno amanhecer que se faz dia, um só ser, unido pela paixão; e o romance ao longo das horas ia, e o casal apaixonado se amava, despercebido que o tempo esvaía...

Mas, na medida em que o tempo passava – se ia sorrateiro, sem alarde –, o romance ao final se aproximava, porque enquanto o sol de amores arde, esquece que seu fogo depois apaga com o frio que impõe o cair da tarde.

O mesmo vento que o amor propagava, agora sopra avesso a tal romance, contentando a inveja das demais plagas; e a pampa de luz, do amor que amanhece, desposada pelo amante do céu, se recolhe escura quando anoitece...

A noite torna a vesti-la, em negro véu, cobrindo a vastidão ora ensolarada que agora, abatida, o lume perdeu; o sol gaudério pega o rumo da estrada, deixando pra trás a diurna amante – em lágrimas de estrelas derramada –.

Sangrado, o amor anuncia o poente de um romance que fora ardente outrora, descendo melancólico o horizonte.

Mas este rubor que se vê agora, do amor fora atestado no amanhecer e prenuncia que amanhã a aurora fará, talvez, o romance renascer quando o lume do sol lumiar a pampa e à sua pele carícias tecer, percorrendo a geografia do campo, sussurrando brisas ao pé do ouvido enquanto aos poucos o dia se acampa.

E de terra e céu o amor desmedido, que morre e renasce a cada arrebol, assim, jamais quedará em olvido, pois a cada nova manhã no sul reacenderá a chama do amor num novo romance entre a pampa e o sol!