Dama de Copas
Publicado em
Num junho de renguear cusco, em pulperia distante, me atraquei numa canastra com o Tempo, velho matreiro. E em meio à sexta rodada dessa peleia de mano, surge uma dama de copas bailando por sobre a mesa, me olha meio por baixo, não percebo se é sorriso, não percebo se é tristeza, mas me rendo à sutileza do seu mirar de soslaio.
Mesmo a mesa sendo pobre, mesmo que os deuses do jogo não recomendem juntar, trago pra junto de mim esse arcano de mistérios, de cabelos cor de ouro, lábios rubros, pela alva e um semblante superior.
Sinto desejos profundos de desnudar suas vestes, e beber do seu perfume, de conhecer seus gemidos e desfazer os arquétipos de mãe, rainha e senhora, pra redescobrir a fêmea escondida atrás da estampa.
Viro de ponta cabeça e a dama segue de pé, o coração não se altera! Tem um "Q" de nostalgia, mas não descubro a razão, não conheço o seu reverso, se de negro ou rubro feitio, não conheço seu passado e nem o futuro traçado, bebo o vinho do presente, sedento, de alma voraz.
E foi bem entre essas copas que me perdi em ilusões de desvendar seus caminhos entre cerros e vertentes, que me embrenhei, peregrino, nas coxilhas dos lençóis e atravessei madrugadas embriagado de lua, dedilhando melodias pelos vales escondidos pra receber os solfejos de um corpo que pulsa em mim
A mesa as vezes é farta, outras damas aparecem uma com muita riqueza, duas armadas pra guerra. Não me fascinam o olhar, faço trincas e descarto, nem coringas, nem o morto, me fazem capitular.
Numa volteada sinistra, apertado pelo Tempo, ela me escapa da mão e vai repousar serena numa canastra real, me olha meio por baixo, ainda não sei se é sorriso, ainda não sei se é tristeza, sigo entregue à sutileza do seu mirar de soslaio.
Fico espreitando a rainha a uma distância pequena, não folgo, não pestanejo pois todo cuidado é pouco com uma prenda deste naipe, arisca, qual salamanca. Segue na minha canastra mas a queria nas mãos...