Cabo Juca
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Até parece uma lenda, Mas, toda a boa fazenda Conserva, por tradição, Um guasca velho buenaço, Mui respeitado no laço, Muito amigo do patrão.
Gaúcho velho cancheiro, Arranca sempre primeiro, No serviço ou no fandango... Caboclo guapo, mui sério, E’ bem como o Tio Lautério Do nosso Antônio Chimango.
A saudade me cutuca... Me lembro do Cabo Juca Com respeito e devoção. Era bem como lhes digo: Nunca fugiu do perigo; Foi sempre um deus no galpão.
Não gostava de criança, De mexerico ou lambança, Nem de cusco borralheiro... Andava sempre sisudo; Era entendido de tudo, Foi domador, foi tropeiro.
Nunca teve outros anseios, Só possuía os arreios E uma tropilha turuna. Bombacha, espora e chapéu, Um poncho qu’era um troféu Completavam sua fortuna.
Só tinha teto e comida, Pois jamais, durante a vida, Teve ordenado, na estância... Tropeando, voltava ufano, Trazendo, pra todo o ano, A necessária importância.
Simplório, mas, parecia Formado em filosofia, Quando emitia um conceito... -Doutorzinho, cá da escola, Não maltrates tua “caixola”, Quem é bom já nasce feito.-
Dizia, quando um fedelho Do pai entrava no relho: “Isso é bom pra acostumá. A vida é muito penosa. E’ bom ir tirando a prosa Do Piázito, desde já”.
Espalhando ensinamentos, Ao sabor dos quatro ventos, Esse gaúcho viveu... Deixou, contudo, a saudade Da mais sincera amizade De quem o nunca esqueceu.
Já velho, quase alquebrado, Morreu o pobre coitado... Já lhe acendi muitas velas... Atropelou, numa cancha, O bagual que, então, se plancha, Quebrou-lhe cinco costelas.
Cabo Juca, Cabo Juca, Do meu tempo d’arapuca, Do bodoque e do mundéu, Por tudo quanto de ti, Neste mundo, eu aprendi, Que Deus te guarde, no céu.