Coplas de chimarrear solito
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O tempo enfrena um dia lobuno e a água, mansamente, beija as flexilhas, dando de beber ao solo pampeano. Me “quedo”, só, no galpão, a cevar meu mate, a olhar pra dentro e estradear lonjuras na minha memória, que a geada dos anos, groseou ... despacito.
É assim... ao matear de mano com a solidão, que um braseiro com o seu calor se faz multidão... ... e o pai-de-fogo - mui terno - me fita, e as labaredas ... me estendem as mãos.
Bombeio a chuva lá fora, acomodado num cepo; a fumaça do angico rondando os meus pensamentos, e o pontear xucro do vento, talareando no oitão...
O calor da seiva bugra vai temperando o tutano que o tempo velho forjou!
Pego a cuia ... e a água da cambona, lentamente, acaricia o verdor da “yerba” - as verdes coxilhas do pampa, a chuva larga lhes beija - e um “relampo”, campo afora, é sinuêlo pra memória, que no mesmo tranco das mansas... despacito, vêm chegando!
É nesta hora... que relembro os bois, que muito sovaram conjuntas no compasso do meu picanear... ...guri; reponto a tropa de osso - que há muito anda esquecida - e meu flete de taquara - “Oigalê, pingaço bueno!” o primeiro da minha encilha, domado pelo meu velho.
A lo largo... o guri tornou-se homem, e o homem, com sua fibra, despacito, fez-se velho, guasqueado pelas lições da vida!
Sim!... Solito, a cuia entre as mãos, bombeio o findar do inverno com as brisas de setembro - a olfatear primavera - e faço d’alma a quimera para ajoujar esperanças que retemperam o meu cerne.
De já hoje... o tempo amadureceu o meu pensar, já não tenho a fibra daquele qüera mas, vejo o mundo com a ternura do meu olhar de guri.
E, é por isso, que me “quedo” e ... penso, penso ... enquanto chimarreio, em tudo o que se perdeu a la cria neste mundo sem porteira: cambiaram-se as tropas largas por roncos de motores perdidos na polvadeira; já não há gado de osso; agonizam as juntas de bois; dos bons fletes de taquara só há contos pros guris, que vão perdendo aos pouquitos a essência dessa planura nos sonhos que têm em si!
A la maula!... Num instante a “yerba” se faz caúna! Não vou prever o futuro que dispara com os arreios, a apartar dos rodeios parados sobre as coxilhas, o atavísmo terrunho que apresilha o qüera ao campo; nem vou falar da cidade que fere os sonhos com o freio, a cabrestear devaneios,
erguendo o catre derradeiro pra alma dos campechanos!
Por isso!... Que nestas horas em que a chuva mata a sede do pampa, me aparto pro galpão... ... a olhar pra dentro, a estradear lonjuras... e o tropel silente de minhas memórias, vem aflorar em coplas, a cevar mensagens e cambonear lembranças num chimarrear solito!
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Poema dedicado a Delci José Oliveira
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Me “quedo” : Me paro, fico. Termo fronteiriço.
COPLAS DE CHIMARREAR SOLITO