A Margem da vida de um tropeiro
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Tropeiro das noites curtas... na ronda das tropas grandes.
Orelhano... de qualquer sorte. Mas... Assinalado pelo destino, com as forquilhas da lida e... as palmatórias da vida.
Era um desses índios calados, ensimesmados, mas de alma doce e prosa mansa.
Hijo de la Banda Oriental, Dom Nicácio Cardozo desde piazito se fez tropeiro, sovando bastos pelos interiores da pampa grande, cruzando trilhas, corredores sem fim... levando tropas que não eram suas com o zelo de que o fossem.
De riso largo... - ainda novo - foi bom ponteiro, guiando tropas com precisão. Era dele, também, a vez de chegar antes nas pousadas, juntar lenha... fazer fogo... recostar cambonas e preparar o amargo. Vez por outra, ainda lhe tocava a carneada.
Já maduro - capataz de tropa - povoou os cuentos da peonada e se fez lenda entre tantos pelo cuidado e dedicação a seu ofício, como que o fossem entalhados... no cerne.
O seu: “- Era boi!... Era boi!...” se estendia pelo campo, encontrando o horizonte, de contraponto ao sopro do vento e duetando... ...com a ponte-suela do freio do seu preparo antigo.
Um aba larga cobrindo a longa melena negra, sombreando seus traços de ameríndio, o campomar sempre pronto para guapear tormentas, uma coqueiro de botar respeito, um par de esporas com detalhes de allá, o doze braças - de agüentar qualquer tirão - um tirador com flecos e, qual bandeira, ruflando ao vento, o colorado por sobre o peito ...eram os trastes deste qüera.
Montava um flete picaço, estrela luzindo à testa... ...também um baio de tiro. Dois pingos florões da pampa, dois tronos pra um Monarca! Nos pêlos... a noite e o dia ...num simbolismo terrunho da lida que não folgava!
Sempre fechava um crioulo - bem despacito - antes de voltar pra ronda, como parte de um ritual. Picava o fumo e antevia... a lida que se seguia. E - por certo – lembrando de algum cambicho, mostrava o largo sorriso ...no brilho terno do olhar.
Bandeava uma tropa como poucos - maestro de rara sabedoria - orquestrava os movimentos da tropa... dos companheiros... e até os da cuscada!
Mas... num dia em que o vento norte - agourento - tropeava nuvens, e o rebanho branqueava o pano na costa de mato na curva de um corredor, com um laço forte num sobre-lombo certeiro... ...a morte - “unha-de-gato” - sacou o taura do lombo do seu picaço!...
Sim... ficou ali, num repente... Hoje... capatazeia as nuvens na tropa de alguma chuva, deixando o sorriso largo nos recuerdos de quem o viu, um rastro de bom parceiro e, n’algum cambicho... um vazio.
Tem horas em que o vento parece que traz o som do seu:
“-Era boi!... Era boi!...” “-Eraaaaaaaa...”
É certo... Dom Nicácio não monta mais um picaço, nem o baio pêlo do dia... Emponchado de poesia, é lenda em roda de mate e estrela luzindo à testa das noites aqui do sul!