Romance de estrada e tempo
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Como rugas na testa da coxilha, vão-se estendendo as huellas paralelas. Ocultando, entre cardos e flexilha, o que a vida escreveu ao longo delas.
Quanta interrogação! Quanta surpresa! Quanta alegria... e também, quanta tristeza eu vi chegar por essa mesma estrada traço de união entre o meu faz-de-conta e o mundo dos andantes e tropeiros.
Quando guri, meus olhos noveleiros sempre vigiando a estrada todo dia, fui sentinela ativa deste posto. E, ao primeiro sinal, dava o alerta: vem gente! ...imaginando quem seria...
Talvez aquele de língua sovada, que trazia notícias de outras terras; que falava de horrores e de guerras onde os homens se matavam como feras, na chacina dos campos de batalha! Mortos com honra... sem cruz e sem mortalha; Pátrias em paz... com glórias e taperas.
Ou - quem sabe - o Domador de Potros que aqui chegara com baguais por diante (e o toque do cincerro, qual magia, tornou palpável minha fantasia e me fez domador, naquele instante... Pois, ao vê-lo afastar-se, no outro dia, me pareceu que era eu quem ia com meus baguais de sonhos, em reponte...)
Ou seria o Ligeira da Sesteada? Tão faminto... tão quieto e maltrapilho... Ou o Mascate, de língua enredada, que trazia no lombo de um tordilho uma carga de vidros e fazendas?
Meia légua, do rancho até a porteira, mas, por mais longa a trilha que o destino nos reservou, marcada com sua poeira ficou ali a primeira despedida; À espera que o nosso esquecimento, com lágrimas de chuva e voz de vento, fosse apagando as marcas da partida.
O rancho é diferente, está mudado; Mas a estrada está igual, não mudou nada.
Às vezes, quando estou abichornado me parece que enxergo, no fim da estrada, ressurgindo das névoas do passado, aqueles que daqui foram embora para jamais voltar.
O Forasteiro, o Domador de Potros, o Mascate, o Ligeira... E tantos outros foram deixando em mim sua influência e me fizeram sonhador e triste.
E essa ilusão, que ainda hoje insiste em relembrar meus tempos de criança, me faz pensar que tudo se repete; E, a cada instante, a vida nos promete caminhos de ilusão e de esperança.
Nada disso passou, nada morreu. A vida, a vida continua sempre linda.
A estrada do meu rancho é a mesma ainda. Tudo é igual!
Quem mudou fui eu...