História Antiga
Seu pai fora bolicheiro.
Por essas razões da vida Que até mesmo quem mais sabe Pouco consegue entender, Depois de andar de agregado Lavrando campos alheios, Plantando pra não colher, Fora virar bolicheiro - com o que sobrara das secas, Mais a mulher e os guris.
Embora homem de bem, Se vira, mais de uma vez, Às voltas co’a autoridade; Diz que por contraventor. É que coimeava uns carteados (truco, golfo, primeira e até o solo era jogado nos dias que os mais sabidos se juntavam pra carpeta!) Lá pra os fundos do bolicho Fazia rinha de galos E também jogo do osso. Até que um mala-cabeça, Revolvero e calavera, Foi xarqueado numa briga. O bolicheiro – coitado! – Esteve até atrás das grades, Pra desgosto do guri.
Por isso, não entendia, Embora o pai explicasse; Parece que os homens nascem Com seus destinos traçados. Uns pra serem delegados, Outros pra andarem proscritos. Quem manda leva no grito, Que ouve não tem razão, Vai por diante – por mais potro. Se – como dizem os demais – Nós somos todos iguais... Tem uns mais iguais que os outros!
Ficou moço, olhando estranhos, Cotovelando o balcão. Se fez homem, isolado Nesse oásis do bolicho, No fim do brete deserto, Onde buscavam consolo Os deserdados da sorte. Onde peonada de estâncias E tropeiros, de passada, Esvaziavam as guaiacas Pra estufar as algibeiras E abastecer às bruacas.
Conhecia, como poucos, A alma daquela gente. Pois, um balcão de bolicho É um xucro confessionário Onde uns tragos de cachaça Fazem um maula se ajoelhar, Mostrando a alma contrita E até o mais venta-rasgada Frouxa o lombo, e se desarma Pra chorar suas desditas.
Entendia, de sobejo, As razões e os desenganos De quem nasce despilchado; Cresce para ser mandado, Vive pisoteando estradas, Morre sem deixar saudade.
Por isso arriscavam os cobres Na tava ou numa carpeta Quem sabe? Largando a jeta Ficariam menos pobres. Mas, cuê putcha! Até no jogo Só ganha quem não precisa! Quem joga a própria camisa, Pula d’água... cai no fogo! Ali mesmo, no bolicho, Acontecera este fato. Entre as linhas do relato Vê-se a velha diferença, Que, mais do que a gente pensa, Se repete na memória. Talvez outros personagens, Outro céu, outra paisagem... Mas, no fundo, a mesma história.
Se encontraram, por acaso, Num dia de carreirada. E, como sempre acontece, O amor, quando aparece, Não cuida da conseqüência. Ele – pobre e sem querência. Ela – filha de estancieiro. O sonho é mau conselheiro E a razão não tem valia Para um coração amante; É luz da estrela distante Que morre ao nascer do dia.
Cercado pela milícia Recebeu foz de prisão! Seu amante coração Nem pensou morrer peleando. Entregou-se. Nada disse Contestando a acusação. Foi preso por insolente, A mando do delegado!
Não vê que – desaforado! – À vista de toda gente, Esbarrou seu redomão E, como prova de amor, Ofereceu uma flor À filha do seu patrão...
No registro da ocorrência Ficou assim lavrado: “O maula foi degolado Por resistir à prisão.”