Domingueadas
Publicado em
Nós não mudamos o tempo; com o tempo nós mudamos.
Hoje nas canchas de tava eu passo de relancina. Mas, nessa vida teatina, já foi minha devoção nos anos verdes de moço.
Quando abaralhava o osso tinha o destino na mão, para perder ou ganhar. Erguia o braço no ar e a sorte estava lançada!
Onze passos, volta e meia e a tava, de boca cheia, ia encordoando as clavadas.
Cada tiro é tudo ou nada. Bem ao gosto de quem pensa viver tudo num instante. É a idade do desassombro, de descobrir a si mesmo. O lenço atirado ao ombro e a fé que nos desentona. Qualquer desafio é vasa -se perde volta pra casa se ganha... é na redoblona.
Mas, como o tempo me dava menos ganhas que perdidas, larguei o jogo da tava.
Aprendi que nesta vida, além de sorte, é preciso olhar bem por onde piso, pra não ser embuçalado com um pelego enterrado ou uma tava carregada.
Mais tarde, noutra volteada, passei às rinhas de galos. Estropiei muitos cavalos rumbiando p'ros rinhedeiros.
Passava o domingo inteiro em volta ao tambor das rinhas, a gritar enlouquecido -fervendo o sangue nas veias- como se, em cada peleia, também sangrasse ferido.
O homem se animaliza nesse ambiente barbaresco; e cheiro de sangue fresco assusta um rodeio inteiro!
Cada puaço certeiro, cada solta de revuelo -ferindo de arrepiá o pelo, destroçando a carne nua- era como se essa pua, na dor da ave ferida, despertasse nesta vida os gens charruas que eu tinha. Eu me via -peito aberto- sem temor nenhum à morte, ir peleando contra a sorte sem fugir nunca da rinha.
Mas me cansei das peleias, catequizei meus charruas. E, como as fases da lua, mudei de novo meu jeito.
Gauderiando insatisfeito andei de um rincão pra outro. E se já não era potro, também não era de freio. Um dia o destino veio me repontando pro pago. Bem diz que não há matreiro que não sirva pra sogueiro: deixei de ser índio vago!
Foi assim que, sem rodeios, me dediquei às carreiras.
Pedestal dos meus anseios, o cavalo confidente -sempre a escutar, paciente, as queixas e os devaneios- passou a ser parelheiro nas canchas retas do pago.
Das experiências que trago, entre bichos e pessoas, guardo muita gente boa na lembrança, com carinho. Mas lembro muitos sotretas, pois é em canchas e carpetas que mais se conhece o homem.
Na ambição se consomem razão e honestidade. E tem muito de verdade aquele velho refrão: “... joga por necessidade, perde por obrigação!”
Mas, fora algum calavera e algum rolo com milicos, sempre as reuniões de carreira me deram muita alegria. As festas da parceria comemorando as façanhas; as brabas, que foram ganhas no braço e na compostura; as fijas, de dar usura e depois perdê na orelha; os palos com os changueiros nalgum de capa e biqueira; a esfola-de dar bateira- nalgum puro, da cidade; cerveja; paga à vontade pra brindar à peladura do que gritou sem reserva e pagou a rapadura.
Nesse tempo – já homem feito, cascoteado pela vida- não me gastava em partida nem me cansava no freio. Ia pronto pro jardeio e, com calma e sangue frio, só topava um desafio pra correr sem fazer feio. Passava um tempão inteiro preparando o parelheiro pra estar “ na última prima “, ligeiro -de saí em cima; e guapo- com braço e classe. Donde hai yegua potro nasce! Sempre andava preparado pra vencer todo empecilho; depois de “baxa grudado” -não tinha sapo maneado e nem buraco no trilho- pra perder... só que rodasse!
Ganhei pencas de petiço de potro e cavalo manso. Mas já não tinha descanso, com tantos adversários. Pois aprendi nas carreiras que, nessa vida matreira, quem vence arranja contrários.
Por isso me abri das raias, fechei as estrebarias. As éguas botei em cria e os cavalos, nos arreios. Afinal, já estou de freio e os guris, ficando moços. Uma corda no pescoço, nomais, e eu já cabresteio.
Aos domingos fico em casa - quieto como tuco – tuco. Já nem saio pros bolichos. Quando muito jogo um truco nalguma tarde chuvosa, mentindo e contando prosa pra encorajar os parceiros.
Mesmo sem liga e sem cartas, se a volta vem de bom jeito, mando passar e abro peito. Me paro bem ouriçado. Se encontro o padre mamado já disparo pro baralho.
A vida me deu trabalho, mas disso tirei proveito. Aprendi a levar com jeito o que não posso mudar.
E, se me toca jogar a tudo numa carteada, até um vale – quatro aceito... se tenho a primeira feita e me sobra o ás de espada. Quando se sabe esperar tudo acontece a seu tempo. A toda hora há exemplo, no fracasso dum afoito; com a flor de trinta e oito pode-se perder de mão.
Tudo tem hora e razão -quem não aprende fracassa- nesse jogo que bancamos.
Não pensem que o tempo passa; ele fica... nós passamos.