Caravoltas
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Gaudério. Sem cabrestos nem colheras Para me tironear o coração. Atrelava nos ventos meu destino.
Caminhava Pensando que jamais voltaria a pisar, A mesma estrada.
Os pingos que montava Em minhas andanças Eu mesmo arrocinara com paciência.
E como eu Não tinham mais querência Nem recuerdos pesando na garupa. Calejaram os queixos nos caminhos, Esbarraram de freio nas porteiras, E das huellas sem fim dos corredores Eu fiz raias, Sem laços, nem bandeiras.
Nas noites mansas, Se o clarão da cheia Inundava de lua essas planuras, Nem me detinha pra rondar um sonho. Viajava sem descanso a noite inteira Ao compasso do aço da barbela, E o cricrilar da espora cantadeira. Ia esperar o sol noutro horizonte Miscigenando tintas e matizes Na tela das manhãs, Pintando auroras. A liberdade era meu poncho ao vento. Para viver com ela Alcei-a na garupa do meu flete Quando fechei pra sempre essa cancela Que se abria entre o rancho e a estrada real.
A ostentava como um estandarte; A carregava como uma bandeira. Enchia o peito com orgulho dela Se de passada por um vilarejo Alguém, desde a moldura da janela, Olhasse com inveja, deste andejo.
Ninguém a via. Mas lá estava ela, Linda como acácia nos outonos, Fita vermelha e flor no cabelo. Saia estendida sobre a anca escura De um zaino negro de lunar no pelo. Abraçando a sorrir, minha cintura.
E eu me sentia em cima do cavalo Dono da minha sorte, como não! Certo de que o destino a gente faz Era livre para andar Sem deixar rastro que fizesse sequer, Olhar pra trás.
Coração duro como pedra moura. Terra seca, Onde dormiam sementes Sem despertar pra o ciclo desta vida. Sem germinar a flor.
Não sei chorar. Talvez por preconceito. "Home não chora!" me cobraram tanto, Quando num talho ou num tonto de mau jeito Marejavam meus olhos, dor e espanto.
E também aprendi com os mais antigos Que potro a gente doma e fez cavalo. Que a mulher foi criada por Deus pra ser da gente, E assim Se amansa o chucro e escolhe a china Conforme dá na telha, simplesmente. Mas desde o dia em que deixei seu rancho. E a chinoca acenando da cancela Já não me satisfez seguir os ventos E anda comigo uma lembrança dela Que não sai da cabeça um só momento.
Eu não sabia desse sentimento, Que anda me segurando como um laço Que me deixa atordoado e desatento, Me tira o sono, e me confunde o passo.
Amanhã, volto ao rancho onde ela mora! Que home não chora, não é bem assim. Vou lhe falar de amor, talvez chorando! E ela que faça o que quiser de mim...