LIÇÕES DE CAMPO E ESTRADA
Cláudio Silveira e Cristiano Ferreira Pereira
Publicado em
Lições de campo e estrada
Lembra ainda... ...Como se cada passagem de vida e lida de campo Fosse um entalhe profundo Riscado no cerne d’alma...
Tropeadas... paragens nos corredores, Os buenas e ô de casa! Pelos ranchos das estâncias E bolichos beira estrada... Cada naco de momento se fez lição e verdade, Caminho, rumo e sentido, Sem preço, mas com valores contidos Pra formar a identidade...
...Assim aprendeu ao tranco E ao tranco vive a aprender... ‘...Alma centaura por certo, Pela linguagem e a estampa, Um rancho no campo aberto Quinchado por céu de pampa!...’
Tão simples um “perro” amigo, Que a tempos lhe acompanha, Refestela, chora em manha Quando o dono se aprochega... Quando atiçado, sai que é um raio!... Vai na ponta e vem de volta, Onde se vai...vai de escolta, Costeando a sombra de um baio...
...E assim aprendeu com o cusco Quanto vale uma amizade, Como é lindo a lealdade E o campechano viver... Veio então a compreender Que amigo fiel não perdemos, Por ser chama que acendemos Com brasas do bem-querer...
...Um laço que se desata E se faz arma nas mãos... Braças, rodilhas e armada E um vôo certo no espaço... Reluz a argola polida E a trança toda estendida Se faz extensão de um braço...
...O flete vira de ponta, Pois assim foi o arrocino, Mas entre bichos e o destino, De camperear pelo ermo, Existem as palavras e o termo, “...mais ouvir...menos falar...”
... Bombeando pra’o cinchador, (A resistência do couro) Reforçado prende o touro Peleando por liberdade!... ...E assim tal qual a presilha Fez também por sua lavra E aprendeu a manter a palavra Dizendo sempre a verdade!...
...As tropas que se passaram, Por corredores e estradas, São marcas eternizadas de outras lições que ficaram... Idiomas, de rondas e de repontes, Geografia de horizontes, nas léguas já recruzadas... ...História em fogões tropeiros, Contas nas tarcas riscadas E a sentença que atropela: Que “as casas”, é um luxo que se concebe, Mas seu valor se percebe É quando se está longe dela!... O flete manso da encilha, Já foi potro e redomão... E ao lhe ensinar a lição Aprendeu mais na verdade, Se destapam realidades Bem menos irracionais, Que até mesmo os animais Dão valor a liberdade!
...Mal comparando a um filho, Que corre, brinca e retoça, Depois o tempo lhe “amoça” E termina o “mundo potrilho” Por isso a doma é um auxílio E qual a um ventena se enleia, A autoridade é a maneia, Que é pra um e para o outro, Pois tal um filho, é um potro: Se não domar, se aporreia!...
Costeando cercas antigas, (Arames cortando o espaço) Tal como nervos de aço Que o tempo afloxou sem pena... Era tão firme e tão buena Que parou tropa e manada; E hoje tramas carunchadas E moirões já carcumidos; Apontam mais que sentido No rumo do seu viver: Por firme que possa ser Ninguém nasceu para eterno E assim aprendeu com os cernos, Que ao tempo de cada um, Todos vão envelhecer...
...Os valores morais, A honra e a ombridade, O respeito e a lealdade, Não se retém aos diplomas... O pampa, a tropa e a doma, Estradas, galpões, mangueiras, São faculdades campeiras Aplicadas pela lida E se fazem lições pra vida Pra se guardar por inteiras...
...Entendeu com a vivência, Que os olhos podem falar... Num pensar com mais tenência A própria voz do silêncio É a luz contida no olhar!...
...Aprendeu, pelos caminhos Que a aguada, por mais pequena, Guarda um pedaço de céu... Notou que bajo o chapéu, Estamos sempre a aprender, E o campechano viver Nos prova sermos só a poeira Da imagem verdadeira Do que pretendemos ser!...
...E assim aprendeu ao tranco E ao tranco segue a aprender...
‘...Alma centaura por certo, Pela linguagem e a estampa Um rancho no campo aberto Quinchado por céu de pampa...’