Chimarrão dos Sem Destino
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Meu amigo - meu irmão, de campo - serra e fronteira, alma da terra e tronqueira, da gaúcha tradição, prepara o teu chimarrão pra que o mundo inteiro tome. Mate amargo! santo nome na religião dos andejos, os que beberam teus beijos, não podem morrer de fome!
Poder não deve - mas pode, não há quem dome o destino, o índio do campo fino, como o da barba de bode que fez dum fio de bigode seu código e documento, agora é um paria ao relento, sobra de tempo e de guerra, porque os que domam a terra não constam do testamento!
Tetraneto dos andantes que domaram a lonjura, testemunhas da escritura das epopéias de dantes, hoje - apenas retirantes, sem nada - além de ser nada; a tropilha desgarrada, sem rumos - analfabetos que se integram nos decretos da história desmemoriada!
O mate é teu - desgarrado, da esperança e da fortuna, aqui no fogão - tribuna, de todo o abandonado, te vejo triste - atirado, lembrando o pago - talvez, e o que o destino te fez, ao te apartar da querência, sem quebrar - nem na indigência, essa bárbara altivez!
Essa altivez que te resta pode durar muito mais, pois te sobram credenciais, além do ser que protesta, a preocupação na testa e os olhos queimando luz, talvez pensando em gurus, estranhos aos teus terreiros, ou - talvez - nos entreveros dos nazarenos sem cruz!
Atrás o tempo - a lembrança do "não tem mais" da tapera, na frente - a incerteza - a espera, mas ninguém come a esperança; o choro de uma criança, o leite - o pão que não há, salário - se tem - não dá, teu viver não vale um real; misero inseto social em qualquer parte onde vá!
Eu sonho - taura charrua, te ver pelear - sem violência, dentro da lei da consciência, na pátria que é nossa - é tua; sair como um livre à rua, não pra matar ou morrer, mas pra exigir - pra dizer que tu mereces respeito e - como tal - tens direito, como os demais - de escolher!
Acredito nos escoros que ainda firmam o garrão, no primitivo padrão desta querência de touros; gringos - lusitanos - mouros, dos quais a gente descende, como a brasa que reacende, dentro da cinza dormida: uma vida - além da vida que não morre - nem se vende!