Alma em Verso
Poesia

Chasque a galope

Antônio Augusto Ferreira

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Eu tava me aprontando pro baile da noite, mandaram me chamar, encilhe o gateado, toque a galope, a velha tá mal, precisa remédio, não passa de hoje, um pé lá outro cá, parará, parará, parará, parará. Mas logo hoje, na noite do baile, a Marica decerto nem sabe da velha, não vai esperar. Tanto dia pra morrer e logo hoje! Coitada da velha, patroa tão boa, no outro verão, quando a Castiana andou por aqui, me metendo os olhos, rebolejo pra lá, rebolejo pra cá, a velha me avisa, cuidado meu filho, essa não serve, é que nem coruja de corredor. Mas do jeito que vamos já fiz uma légua e não dá pra parar parará, parará, parará, parará. A Marica tá no baile, dançando com quem? No ano passado, no puxirão da quebra do milho, peguei o meu eito do lado do dela, querendo estar perto, dizer o que sinto, mas não vem. O cigano chegou, vendendo tacho. A Marica no vestidinho, quase não cabendo. O cigano estaqueado, olhando demais, me deu um engasgo, bicho do diabo, vendedor de tacho, não sabe nem andá a cavalo. No outro dia fui na venda, comprei um pano de chita, tome, faça outro vestido, aquele não cabe mais. Nessa hora o baile já pegou. A Marica tá lá, a gaita se abrindo, o gaiteiro se rindo, cantando pras moças: Quando vim da minha terra, minha mãe recomendô: Meu filho tu não te casa que teu pai nunca casô. A estrada se estira, a metade se foi, a Marica no baile e eu a galope, convidando o cavalo, vamos gateado! Falá nisso lembrei do Gaúcho da Fronteira: A la pucha, tia Picucha, quebro o corpo e vou de lado. Ô Gaúcho da Fronteira dá-le boca pro gateado. Quando a volante chegou na fazenda, seu Fiscal todo monarca, intimando, quero isso e quero aquilo, e blocos e papeles, o patrão atendendo, a raiva crescendo, até que não deu, arrepiou o topete, se arrastou pra fora, puxou dos talher. Na hora do pega seu Fiscal pediu penico, pelo amor de Deus não se ofenda, o senhor entendeu mal, não foi isso que eu disse. Chegou grandão, saiu piquinininho. Mais um upa, gateado, que estamos no passo e não dá pra parar parará, parará, parará, parará. Sei de cor o recado, chego na vila, bato na farmácia, me atenda ligeiro, a velha tá mal, não passa de hoje, que eu toco de volta, parará, parará, que ainda tem baile, me espera Marica, dá tempo pra um tango, se o cigano tá lá, dá tempo pro mango... Iahahá! parará, parará, parará, parará...