Alma em Verso
Poesia

Cerração

Carlos Omar Villela Gomes

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Cerração, não me assusta o teu cenho, Quando cerras, negando o futuro; Quando cegas os sonhos que tenho Meu cavalo é um morcego no escuro.

Nos teus matos incertos me embrenho Farejando a amplidão que procuro; Cerração, não me assusta teu cenho... Meu cavalo é um morcego no escuro!

Seguimos eu e a minha fuça vida afora. Lavando a cara dos dias... Desaninhando os fantasmas, Desentocando das tralhas Meus sonhos e rebeldias.

Poncho negro feito a noite funda... Alma clara, a jorrar poesia!

Não me assustam ventanias largas Nem me atiçam as fogueiras mortas; Se me trancam, arrebento as portas, Num tropel das mais furiosas cargas!

Rebeldias são clarins de guerra Pra quem teima em se apegar ao chão; Desvendando mil rituais de terra Nas lonjuras ou na cerração!

Cerração, tu não me prendes... Escondes o que me aguarda! Cerração, tu te renegas, Bichará que o tempo carda; Tu cerração, não me prendes, Nem teu silêncio me amarga.

O que me escondes, malina? Será que um tempo distante Onde a raiz ainda é forte E o sonho insiste em viver? Ou algum tempo de assombro Em um futuro tão perto, De um pampa feito em deserto E um sol que não quer nascer?

Não sei do amanhã, malina... Não sei, mas quero entender! Seguimos eu e a minha fuça vida a fora, Mastigando ervas brabas... Ruminando distâncias, espalhando sementes, Sem mirar, por tua causa, Nem um naco de estrada, nem um palmo à frente.

Talvez sejas amiga, parceira, E me poupes, sem eu perceber, De amarguras e imagens traiçoeiras Que teus olhos não querem mais ver. Um caminho repleto de pealos E um vulto, seguindo, tão só... Um gaúcho, sonhando a cavalo, A enfrentar seu destino de pó.

Talvez me cegues Pra esconder os arrabaldes, A dor dos rancheiros... Pra esconder olhos de fome Frente a lavouras imensas... Frente a rebanhos marchando Pra saciar gulas intensas Do outro lado do mar.

Talvez prives os meus olhos Das tantas chagas que choras; Talvez maneies meus trancos Com medo que eu vá embora! Não cerração, não me vou... A minha fuça tem brio; O brio que entalha em seu fio Cada razão do que sou!

Se for por bem que me cegas, Te agradeço a reverência, Mas quero ver as agruras E as sombras desta querência. Pechar os tombos e cortes, Prantear as dores de ausência... Assim renasço mais forte Dos picumãs da existência!

Mesmo assim, eu te enfrento, malina! O teu beijo me turva a visão... Eu me embrenho no breu da tua sina, Pois me guio por meu coração!

Sou o céu das paixões que contenho, A incerteza é meu rumo seguro; Cerração, não me assusta o teu cenho... Meu cavalo é um morcego no escuro!