Cerração dos Tempos
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O arroio some em meio a essas brumas... é tempo de cerração... as figuras somem nas esquinas, envoltas em névoa... as lembranças fogem pelas curvas da memória... mas em algum lugar permanece a estampa querida os cabelos da cor da cerração, os olhos da cor do céu, as mãos trêmulas, conseqüência dos anos... a mente aberta, distribuindo sabedoria e afeto.
Se olhar de perto, pelas curvas do arroio ainda vejo os maricas floridos... as flores da cor da névoa a se espalharem por sobre as águas... é a figura amada a se confundir nestes matizes tristes de um tempo que se foi pra não voltar... revejo o ser amado sentado (que as pernas já não lhe agüentavam mais!)... horas e horas a fio, colocando isca no anzol, me ensinando onde colocar o caniço, como fazer para que a linha não se enredasse nos aguapés... como puxar lambari que, fisgado, brincava que nem guri, puxando de um lado pro outro, a arma que lhe matava...
Em outros momentos, longos silêncios me ensinaram mais que mil palavras... o olhar perdido, a fronte serena, as mãos sobre os joelhos... a figura do avô fala pelos gestos que faz e até pelos que deixa de fazer... e nas manhãs de cerração eu o vejo à beira do arroio jogando a isca para pescar o lambari que fez minha festa de guri num tempo em que não havia esses brinquedos modernos... em que os avós eram apreciados e nos contavam suas histórias, que em certo ponto eram também a nossa história...
E hoje, essa cerração me surpreendeu... invadiu meu espelho, pondo rugas em meu rosto, névoa em meus cabelos... distâncias em meu olhar... me fazendo ser mais parecido com o avô!!!
E de repente, a porta se abre e vejo meu neto de caniço na mão, lata de minhoca na outra, um sorriso no olhar, me dizendo como quem quer brincar: Vamos ao arroio pescar????