Carreta
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Como adeus em despedida, vai-se a tarde, tristemente. Pelas bandas do poente um sol de seca esmaece. Há como um rumor de prece nas gargantas emplumadas. Cessa a vida nas estradas, nas grotas e nas coxilhas onde as últimas tropilhas campeiam seu parador.
Na volta do corredor surge uma quadrilha a trote; na culatra, um piazote, gineteia num tostado chupando o beiço, apurado, para chegar convidando... Um tordilho retouçando e dois baios seguidores fazem testa, anunciadores da acolhedora querência.
Pena tudo na inclemência do castigo das pastagens. Não há frescor nas aragens que sopram de quando em vez. Sequiosa chega uma rês na lagoa chapinhada onde garça ensimesmada, encolhida na tristeza, memoreia com certeza saudades doutras paragens...
Varre o “Norte” poeirento horizontes em fumaça. Uma carreta que passa rompe a calma do instante. Vão dois tambeiros por diante repinicando o badalo. O chiru velho a cavalo vai abanando a picanha, — enquanto o coice acompanha da “ponta”, volta por volta.
Em fios a baba se solta das quartas xucras de canga. Os quero-queros na sanga, contam logo a novidade!
Tão raro na atualidade, é o cruzar duma carreta que esse pássaro xereta, do vulto estranho se assombra!
Do guaipé, que na sombra da mesa, marcha assoleado; do corote pendurado, da trempe que junto vem;
Do resmunguento nhem... nhem... da buzina de aguaí e da petiça ñambi, de tiro no recavém.
O couro bate na porta. Vai o muchacho de arrasto deixando atrás o seu rasto rabiscado em linha torta;
mas, na estrada poeirenta terá o rasto curta vida, porque o vento é de tormenta e mui pronto o apagará.
A noite pampa se acerca. Desperta em sons a planura, seu concerto de abertura afinando em notas claras. Zune o vento nas taquaras arrematando a algazarra qu’inda faz uma cigarra, cargosa de se calar.
Então, - me fico a pensar que o velho traste pampiano, do seu destino haragano, já vai tocando no termo. E que ao cruzar pelo ermo, engolindo as léguas largas das estradas do rincão, carrega as últimas cargas da Gaúcha Tradição!
Velha relíquia do pago já hoje por imprestável, no rol das coisas proscritas. Recordas quando transitas na tua lenta passagem um passado memorável de luta, glória e nobreza!
E ao relembrar que a paisagem tu deixarás de animar, acampando a tua pobreza em pousos à beira d’água, eu sinto uma grande mágoa e um profundo pesar!
Carreta! és igual a mim que também já chego ao fim, gaudério, sempre a cruzar... Alma velha em corpo gasto, da vida pelos rincões vou cruzando sem um rasto, carregado de ilusões.