Zumbi
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No terreiro, se desfaz a madrugada. Na alvorada, há flores já murchas no chão. Ogum se foi. Ficou o Zé Francisco. O Chico empresta o cavalo pra Ogum. É dia vinte e um. É novembro, e vai nascer um outro dia. Mas a bruma esconde o sol. E o dia parece acovardado e o sol acabrunhado. Sabem que ontem foi o dia em que Zumbi morreu. Não morreu, não! Zumbi não morre! Zumbi ninguém mata! Não com açoite ou com chibata! Ainda se ouvem os atabaques e o canto do povo: "Zumbi, Zumbi, oia, Zumbi! Oia, Zumbi, mochicongo!" Eu te permito, pai Ogum. Usa este cavalo para ver. Então vejo canaviais ondulando com o vento. O vento que move os navios-negreiros aportando em Pernambuco. Trazendo da costa da África os negros. Pobres negros. Yorubás, angolas, congos, minas, cabindas, quiloas, monjolos... Homens, mulheres e ... até crianças! E uma princesa. Aqualtune foi capturada. Vendida e trazida pro inferno. Vejo um senhor-de-engenho, com terno de linho branco a fumar seu charuto. Com seu chicote, um feitor acorda negros ainda não refeitos do dia anterior. Bem antes de nascer o sol. Que hoje, aliás, ainda não nasceu. Vão para os canaviais, como fossem animais. Às costas carregam medas de cana pro engenho. Moenda. Fornalha. Muito se trabalha. Pouca é a comida. A paga é nenhuma. Vão viver muito pouco. "Que morram! Na África, há muitos pretos", saboreia o feitor, O feitor é negro, o chicote é escuro. Na carne viva, nas costas vermelhas, o sal branco. O açúcar também é branco. A dor é preta. Vejo o açúcar nas mesas abastadas da Europa. Com seu branco, ele adoça a vida dos brancos. A Europa se lambuza com a doçura, mas não sabe do sal da chibata. Mesmo com dor no corpo e na alma, há negros que não desistem. A morte é um mal, mas é melhor que vergasta e sal. A morte também é liberdade. Vejo, bem claro, correr um menino. Livre. Neto de Aqualtune, que os seus reúne. É Zumbi. Zumbi comanda o Quilombo dos Palmares, em Macaco, capital dos Palmares, capital da liberdade. Na Serra da Barriga, foi gestada essa liberdade. Mas a Europa queria o doce, nem que fosse com o sal nas feridas. Nem a Bula papal prescrevia remédios. O papa era Pio, mas nos engenhos não havia piedade. Ao Império, Zumbi era uma afronta. Zumbi não se entrega. A corte apela a um bandeirante feroz. Não carece dizer seu nome. Era velho e tinha alma de fel. Zumbi tinha zumbir de mel. Palmares foi dizimada. Mulheres, crianças e velhos, todos pretos. Mas Zumbi não foi encontrado. Tempos depois, atraiçoado, Zumbi foi degolado. Sua cabeça foi exposta na Capital. Para provar que o herói estava morto. Ah, mas não me levem a mal. Na versão oficial eu não acredito. Pois Ogum já tinha dito. Ogum não é São Jorge. Ogum é Ogum. Zumbi não morre, Zumbi é imortal. Zumbi nasceu livre. Viveu livre. Sempre foi livre. Está livre. Voltará livre. E vai continuar livre. Como a brisa. Mesmo que não haja sol.