Alma em Verso
Poesia

Jayme e os Dez Mil Poetas

Carlos Omar Villela Gomes

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Jaime abriu os olhos mansamente, Num silêncio de poço... Sentou, fechou um palheiro, Olhou pra os lados mas não viu ninguém...

Jaime estava só à beira do fogo, Um fogo grande de incendiar invernos, Desses que vivem no olhar das prendas E que consomem tantos corações.

Já não sabia onde estava Mas era noite de frio... E os olhos claros de Jaime Singraram pelo vazio.

Talvez perdidos nos braços De alguma paixão extrema... Talvez voando sem asas No céu de mais um poema.

Jaime estava em silêncio E em silêncio ficou... Puxou um naco de fumo E lentamente picou.

De repente dez mil luzes, Dez mil sóis, dez mil estrelas Se puseram a brilhar... Dez mil lendas andarilhas, Dez mil almas em vigília Se achegaram ao lugar.

Dez mil pássaros surgiram E dez mil anjos caíram Por entre os focos de luz... Dez mil vates e profetas, Dez mil sonhos, dez mil poetas Dez mil mártires sem cruz.

Jaime sentiu tempestades Trovoando no coração... Os poetas foram chegando Sem nunca tocar o chão. Jaime ouviu as palavras Desses dez mil querubins; Num mesmo tom de verdade Então disseram assim:

“-Teus versos vem das entranhas, Não só da terra vermelha, Mas da própria humanidade Onde teu sonho se espelha.”

“Quando criavas tuas rimas, Quando soltavas tua voz... Em cada luz que parias Havia um pouco de nós.”

“Somos o sonho construído pelas eras, Em cada estrofe que alguém ousou compor ... Pois na verdade ninguém cria, é instrumento Que o pensamento dos antigos dominou.”

“Tens o teu Dom porque és um ser iluminado, Foste escolhido pra seguir essa odisséia... Onde as nações sangram as chagas do pecado, E o poeta traz a cura com as idéias.”

“Somos a fé em tudo aquilo que buscavas, Dez mil guerreiros construindo um ideal... Somos a vida florescida nas palavras Somos a chama da poesia universal.”

“Estás aqui, companheiro, Pois tens razões para estar... E hoje vieste tomar Um lugar perto dos teus; Estás aqui, missioneiro Porque és irmão e parceiro... E o teu solo vermelho É o próprio sangue de Deus.”

Jaime engoliu o silêncio E uma lágrima caiu... Numa força mais intensa Que as águas de um grande rio.

Os anjos então partiram , Riscando o céu num clarão... Foi quando o mais nobre arcanjo Levou Jaime pela mão.

E hoje quando um poeta Nalgum confim do planeta Se veste de coração, Existem dez mil guerreiros Mais um anjo missioneiro Voando sem cativeiros, Ocultos na inspiração!!!