Guarita
Como chegou, ninguém sabe, Ninguém viu nem se importou... Apenas passos cansados E um silêncio que restou. Mira longe, pisa perto, Sente o destino nas mãos... Anseios de céu aberto Pulsando no coração.
Os pés se firmam no morro, A alma tenta voar... Os sonhos pedem socorro Beijando a boca do mar. Não ouve mais os tormentos E o mundo dizendo não... Escuta apenas o vento E o som da rebentação
Os olhos enxergam longe, Além do bem e do mal... Buscando um tempo perdido No templo do litoral. De cima a vida é mais vida, Mas também pode não ser... Num momento os pés bem firmes, No outro, quem vai saber?
Seus olhos buscam o céu Nos olhos claros do mar...
Quantos segredos nunca revelados, Quantas paixões e temporais humanos... E quantas cruzes foram carregadas Na “via crucis” do passar dos anos. Tantas peleias, tantas despedidas, Tantas histórias que não vai contar... Quantos lamentos vertem desses olhos Que hoje se perdem na amplidão do mar.
Os barcos recortam o horizonte, Parecem que são anjos pequeninos... O mar é um véu de paz neste momento Chamando pra cumprir o seu destino.
As ondas batem forte pelas pedras, O sal das lágrimas desaba do penhasco... E encontra o sal de quem, embora cristalino, Está prestes a ser feito de carrasco.
A torre alta é um altar de sacrifício Pra quem, agora, quer se dar ao precipício Como se fosse dar as mãos ao Criador. Que ironia! Pois quem busca esta saída E por ter dores abre mão da própria vida Leva consigo a dor mais triste pra onde for.
A Guarita hoje é o palco dessas dores... Um teatro sem platéia ou refletores Num monólogo calado pelo ator.
De onde vem tanta mágoa? Porque se turva a visão? Porque buscar pelas águas Alento pra o coração? Porque desistiu de tudo? Porque cansou de lutar? Porque procurar o céu Nos olhos claros do mar?
Talvez seja porque o céu É só um espelho do mar.