A Montanha do Tio Anco
Meu tio tem uma montanha... É uma montanha encantada! A grandeza da paisagem Contraponteia meus passos, Que vão desbravando o mato, Pequeninos, hesitantes... Desvendando cada canto Dessa montanha gigante!
A ponte se faz imensa Pra o meu olhar insistente... A sanga é rio selvagem, Os lambaris são valentes... E encaram, dando risada, As “caniceadas” da gente!
O arvoredo balança Ao beijo do vento norte... Ou será que são assopros De algum monstrengo escondido Que mora atrás da montanha? Que de repente se assanha E resolve nesse tranco Deixar a gente com medo? Existem tantos segredos Na montanha do Tio Anco!
Até uma princesa moura Já viram nesse lugar... Será que a Teiniaguá, Cansada da vida igual, Veio morar na montanha, Abandonando o Jarau? Será que encontrou meu tio E lembrou do velho Blau?
Pra ser bem sincero e franco, Já tomei mate com ela... Ali, na gruta mais bela Da montanha do Tio Anco!
Em tantas noites geladas, Sentado à beira do fogo, Num castelo diferente Que ele chama de galpão, O tio nos conta histórias Sobre a montanha encantada, Plantando duendes e fadas Na nossa imaginação.
Feito a noite em que o Negrinho Chegou de alma faceira... Largou um buenas, brejeiro, E mais ligeiro que um raio Foi encontrar o seu baio Detrás da bergamoteira.
Meu tio não faz rodeio E diz que não é balela... Que até hoje acende vela Pra o Santo do Pastoreio.
Tem vezes que eu não durmo De faceiro ou assustado... E rondo ao longe a montanha Até chegar a manhã... Não é que eu seja tantã Ou que não faça por onde... É que o Boitatá se esconde Na Toca do Tanhanhã!
Foi isso que o tio contou, Ajeitando o barbicacho... Que ele foi criado guaxo Pela avó do meu avô!
Meu avô? Meu avô não morreu... Meu avo não está no céu. Ele se mudou pra montanha do Tio Anco! Está logo ali, detrás daquela pedra, Detrás daquele tronco, Depois daquela sanga; Ali, pertinho dos seus... Quem foi que pôs no papel Que é preciso estar no céu Pra estar juntinho de Deus?
Eu sei que não tarda muito, Se vão os passos da infância... Faculdade, novas cores, E outros tantos valores Me esperam depois da curva, Pois cabe feito uma luva O meu destino anunciado.
Mas esse mundo encantado Vou levar em cada canto... O arvoredo, as vertentes, O castelo que é galpão... Chega a ser impressionante... Essa montanha gigante Parece até pequeninha, Pois ela cabe inteirinha No amor do meu coração.
E o meu olhar de criança Nunca vai virar semente... Vai viver eternamente Na montanha do Tio Anco!