1. A Última Dança
10º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
Chegou num tranco seguro De dono, líder, patrão... Fazendo contrapartida Ao tranco do coração. Redemunhou caborteiro Mirando a luz do seu par... Até a hora certeira Da música começar.
Olhou com olhar profundo De poço bem escavado... De água que vem pra o mundo Lavar estios e pecados. Bebeu os olhos da moça Reinventando esperanças... Somou o jeito e a força Tenteando a última dança!
A gaita ditou o passo E o moço floreou sua estampa!
Dois veleiros que insistiam Em criar coreografias Navegando ondas sonoras; Nesse mar de sentimentos, Entre brisas e tormentas Escreveram suas histórias.
Cada passo deslizava Como as almas suspiravam Serpenteando no salão; Dois parceiros de verdade Desafiando a gravidade Figurando na amplidão.
Tantos xotes e vaneiras, Tantas valsas, chamamés... Tangaços bem compassados Desenhados pé por pé. Foram anos e mais anos... Querências e mais querências... E assim, dançando, suas almas Criaram sobrevivência.
Hoje o salão mais singelo Tem cismas de mapa-múndi... Mas todo mundo é pequeno Pra luz que habita o salão. Dois parceiros de jornada... Dois amigos, dois irmãos!
As cordilheiras mais altas, Os desertos mais bravios... A nuvem mais peregrina, O mais selvagem dos rios. Remansos enluarados, Tempestades de além mar... Um a um foram surgindo Na dinâmica bonita Que a dança pinta no ar!
As forças da natureza Parecem ter a certeza Que o tempo agora parou; Cada sorriso é um perfume Que alguma fada exalou... A dança... ah, sempre a dança... Elemental circunstância Que o moço sempre abraçou!
As mãos são elos perdidos Que se acharam por aí... Todos os cinco sentidos Palpitam em frenesi... Cinco sentidos famintos No mais sutil labirinto Que a dança carrega em si!
O que será deste agora? Á música vai embora E os parceiros também vão... Cutucando a nostalgia Um peçuelo de poesia Mescla calma e rebelião.
Olhos nos olhos, parceiros... Um momento derradeiro, Um soluço de final... A vida segue seus trilhos, Cada um leva seu brilho Pra o céu da terra natal.
A luz da última dança Mais que pompa e circunstância, De alma se aquerenciou... E um silêncio de saudade Vestiu-se de eternidade Assim que a gaita parou!