Alma em Verso
Poesia

CANTO A MORTE DOS QUE VIVEM

Joseti Gomes

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“Ora et labora” O corpo e suas marcas de vida inteira.

Tronco morto plantado em terra viva, moldado para um fim: “servir” Se tinham sonhos de ganhar os ares, nascessem pássaro!

Nasceu árvore. Permanece enraizado mesmo depois de morto, aqui, plantado... imóvel... sustentando... servindo...

A carne nua se endurece e continua, mesmo que trincada, segurando de braços abertos os muitos ferros que enferrujam quando choram. Resistente às tempestades, está morto e firme, plantado na terra viva.

O gado que deita o peso na fuga ingênua do abate; A corda que ensina o guri, num brinquedo de boi sem aspas; A lâmina que crava ao golpe de mãos ausentes a dor, que dói; O arame e suas tramas; O laço e suas teimas; Os piás, e o olhar que vai além... além dos pastos e corredores... Todos... todos estes que te cercam em festejos, em ritmos de tambores a rufar em teus ouvidos, como um anúncio a curvar-se o dorso, a lançar-se ao chão que treme ao tempo findo... Todos estes são surdos ao que a mim declaras, em tuas ladainhas mudas de servo que reza e trabalha... “Ora et labora”

Carrego a tua essência do ser - estático! Entrego-me a inércia dos que calaram para não sucumbir! Estou de pé... Firme... Silente... Solitário... Sentindo o frio que corta e, o calor que seca o mesmo viço dos olhos que, um dia, pousaram além do horizonte, sonhando com campos demais para seus pés...

Nascemos sem asas... Plantados na terra viva, criamos raízes. O tempo nos fez iguais...

Somos dois a andar perdidos pelos pastos que mudam nas estações dos dias... Ora verde estendido a nos brindar com singelas flores que se vão aos ventos, ora seco a moldar a carne dos que pastam mostrando os ossos sob o couro das carcaças...

Ninguém assume as duras penas do que te corrói. São estranhos aos teus apelos mudos e incessantes. Passam e despejam sobre teu corpo, impressões enrijecidas pelos calos da insistência. Arrancam lascas de teus valores que, amorais, se estendem em cavacos de lágrimas pisadas.

Partem cedo... Perdem-se nas léguas que divisam... Repartem as terras e te plantam a dar posse a mais um naco do que nunca há de ter dono!

Serás vendido, não pelo que vales, apenas pelo que marcas nas cabeceiras dos aramados, que correm junto aos potros em distâncias que meus olhos já não alcançam mais.

Estamos plantados na terra viva... Neste berço que esconde umbigos - - na crença de melhor sorte - dos que chegavam chorando e, por certo, contrariados pela luz que cega os olhos...

Todos plantados de alguma forma. Todos presos pelas raízes de uma história não contada, de um viver além dos vales, das serras, das planícies, dos mares e, dos véus da consciência.

Existe vida após a morte? Morreste e continuas de pé! Sangraste em seivas que envernizaram feridas! Choraste no teu mundo inteiro e calaste a boca pro grito que rompe tímpanos de aço, para que o aço da minha lâmina te partisse ao meio!

Existe vida após a morte. Morri contigo e continuo de pé, sangrando em gotas rubras que mancham o couro. Chorando e represando estas águas que não matam minha sede e nem regam tuas sementes.

Vou semeando ventres que incham e trazem pra cima da terra outros troncos que calam... Que sangram na dor e que soltam potros riscados de espora, em campos marcados por teus filhos que continuam brotando da terra... “Ora et labora”

Existe, sim, vida após a morte! Estamos vivos, rezando e trabalhando, plantados na terra morta!