Cantiga para Jacyara
Vinícius Antônio Machado Nardi
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Singular. Que tu eras assim, Até mesmo as quinas de tua alma Sabiam.
Mas num fugaz instante, Tu te descobriste presente Nas entrelinhas da prece telúrica. Pra ser algo mais que plural Tu foste única.
Um dia, Quando os últimos borrachudos Boiavam tristes nas margens do Uruguai, Recebeste da mãe notícia De um sonho - porto sem cais -.
Iria tomar o Rio Grande por frente Sair da barra da saia do Uruguai Subir a serra e se encontrar com o frio.
Nas curvas que levam a cidade Enquanto buscava rumo e querência Nos cueiros levava a ausência Pra matar a fome da saudade.
"En la merica... Nos siamo arriva..."
"Mas que diacho! Me devolve a mamadeira E aqui o assunto se encerra... Leva embora essa tal de guarapa Que bom mesmo é o gosto da bolacha Que se faz na minha terra!"
Forte!
Em teus sonhos mais tranqüilos Jogava pra longe os travesseiros Porque eles não achavam a posição. E seguia teu tranquito manso Porque as coisas feitas com a alma, Exigem mais que sonhos: Suspiram calma.
Num repente, Transpondo os muros do saber, Te descobriste multilateral.
Sim, pois em teus ideais De pequena revolucionária, As certezas não eram autoritárias E o real saber era informal.
Mas não te bastavam As pequenas felicidades mundanas. Então, de súbito, te fizeste verbo Pra navegar no cedro Da rigidez volátil de Quintana.
No universo de teus dias, Como é que eu caberia?
Hoje confesso que tu, Tu não me fizeste Contemplar as estrelas, Tu, êxtase de doação, Delírio e paixão, Tu me ensinaste a vê-las
Estrada nova, Sem marcas e trilhos.
Como é que eu saberia Que aquelas prosas todas, Na penumbra que ao homem inunda Eram teus gestos de amor?
Não... Te juro que, Enquanto galopavam gotas de sal - traçando rumo por dentro e por fora - O corpo indo embora Contrariava a alma Clemente por ficar.
Pois em teus olhos, Resplendor de confinamento, Tu olhavas para fora Enquanto me via por dentro.
Mas, No universo de teus dias, Como é que eu caberia?
Eis que então, brotando de ti Um sentimento maior de verdade Fez surgir em teu íntimo O encanto da maternidade
Ondas tomaram conta de ti, Corpo e alma navegando em magia Te fizeste teu íntimo em frenesi...
E hoje suspiras mais: Mutando o ar que te envolve, Revelas mãos de Midas em molduras Tu és criador e criatura Luz que irradia o que absorve.
Sugo tua voz em melodia Repasso na alma teu andar sereno Observo cada passo pequeno Fito teu olhar de maestria.
Descubro, então, que da vida, Aos poucos se desnuda o enredo - e cada passo é um salto que ensina -.
Mas tu és para sempre mulher e menina Que leva contigo a estampa de mãe E a vida, voando em teus cabelos.