Quando o Dia Olha p’ra Dentro
O dia vai fechando os olhos e a tarde relaxa o músculo, puxa o pala do crepúsculo e vai cobrindo restolhos, deixando imagens em molhos, ao calor dos raios do sol e o lusco fusco do arrebol vai apertando ferrolhos...
Chapéu quebrado na frente, sobre o vento, de à cavalo, reponta um rabo de galo que se desmancha dolente p’ra encerra do presente e aos poucos se arrincona tendo às botas rossilhonas chilenas estrelas cadentes.
Um panuelo maragato recolhido do astro rei rufla em seu peito de lei como campeiro aparato e completando o retrato, presa à faixa, por baixo, a faca dum raio guaxo forjada num fogo fátuo.
Enrodilha o doze braças da linha do horizonte e sopra por traz do monte uma brisa que esvoaça e pelo ar se perpassa em toada milongueira ponteando a noite campeira, junto à têmpera da raça.
E com as vistas cerradas palmeia a cuia da ilusão, sorve o último clarão de matizes carregadas, deixando a alma emponchada de esperanças sinuelas e o mate reflete estrelas que dançam enfumaçadas.
No apontamento dos cumes formam fila as Três Marias, reticências de poesias com estrofes de negrumes, metrificadas em lumes, na folha da noite escura, com notas de partitura no piscar dos vagalumes.
A lua com seu clarão, alumia a grande invernada, a sesmaria desfraldada, as nuvens de algodão, na tela da imensidão o olho de prata detalha a interminável batalha de São Jorge com o dragão.
Abre os braços o cruzeiro, acariciando a galáxia, ao longo da via láctea um asteróide ponteiro traz na culatra o luzeiro de tropas de meteorito pelo cosmos infinito num contrapasso tropeiro.
Do firmamento até o chão flutuam sonoridades nas profecias das Naiades, em aguadas do rincão, nos medos da escuridão, que acompanham o andarengo deixando o diabo rengo solto com o bicho papão.
O pampa leva na anca clarões aqui e acolá, dos olhos da Boitatá, que rasteja e não se abanca, no alto vê a carranca que se some num perau, rumo ao cerro do jarau da bruxa da salamanca.
Num pelado de rodeio tremula uma luz de vela e alumbra a face singela de Nossa Senhora que veio dar acalento ao anseio, com carinho e com guarida, achando a tropa perdida do Negro do Pastoreio.
Nos ranchos pregando peça, co’ o cachimbo fumegando, passa o saci saltitando, em estripulia, com pressa, sua risada não cessa e vai além da porteira, apostando uma carreira com a mula sem cabeça.
No palanque de corunilha uma coruja bombeia, dando mais de volta e meia co’ a cabeça que destrilha, em cada olho a luz brilha e um quero-quero quer vaza de lança firme na asa, na mais gaúcha vigília.
O orvalho derrama prantos no dorso dos alambrados, que oram enfileirados nos mais crioulos recantos, entoando hinos e cantos no fundo das noites calmas ao sarapanto das almas que habitam os campos santos.
No balanço dos capões movimentam-se figuras, misteriosas criaturas do ermo das solidões, que jogam indagações a cada eito de metro reavivando o espectro de dantescos avejões.
Nas taperas voam plumas de duendes em alvoroço, que tentam o jogo de osso quando a noite se perfuma depois passam uma a uma, esparramando misérias teatinas bruxas gaudérias em vassouras de guanxuma.
A noite exala axé com seus dogmas ocultos e forma estranhos vultos que testam a pouca fé; na casa de M’bororé pulsa uma força guerreira com a cepa missioneira do lunar de São Sepé.
Pela mão da madrugada se achega a estrela boeira, sonolenta, pela beira, com a cara de cansada e vai, de alma lavada, com luminares etéreos coloreando os mistérios que assombram a gauderiada.
Numa copla em si bemol, com os astros em gracejo a noite dá seu bocejo trazendo luzes de escol, põe a tramela no rol da pretura campesina e vai abrindo a cortina do dia com clave de sol.
Toda a energia do centro do seio da mãe natura desnuda cada criatura e rebolca chão adentro, causando um epicentro, na escala da evolução e nos graus no coração quando o dia olha p’ra dentro.