Alma em Verso
Poesia

Angüera

Cândido Brasil

IV Colheita de Versos Abdon Batista - SCPublicado em

Era a “Terra de Ninguém” o pago largo nos vales, a terra era sem males e era de todos também, um tempo que vai além, pretérito de outra era, envolto em sua quimera, habitava o cafundó, na região do Pirapó, o índio triste, Angüera...

Filho nativo da gleba imaculada, alma da taba desde o corpo cunumí, herança bugra da tribo arrinconada, velha estirpe da etnia guarani.

Entendedor dos jujos e animais, do alimento que a natureza encerra, em seu sossego afastado dos demais, parte do meio, porção andante da terra.

Mantenedor do território inviolado, donde surgiu e vivia em abono, legenda viva a cultivar um legado, dono de tudo, onde nada tinha dono.

Pelo instinto que a tudo conhecia, seguiu o tempo, suas mudanças teatinas, observando no cambiar da geografia, sobre o verde, a cor preta das batinas.

E o índio bravo ao ver seu mundo alterado, fechou-se mais em melancolia sincera, permanecendo taciturno, amoitado, reconhecido como fantasma, Angüera.

Em sua tristeza o guarani resistia a convivência com a doutrina cristã e em cada mate de quietude que sorvia, ele sentia a presença de Tupã.

Ouvia sinos ecoando na amplidão em um chamado a guiar passos incertos, seus olhos viam o marchar da procissão, rumo à cruz de quatro braços abertos.

E o colosso erguido em barro e pedra, da mesma cor da santa terra vermelha, pôs no seu peito um sentimento que medra e se expandiu no calor de uma centelha. O índio taura carregado de mutismo, junto aos padres converteu-se amistoso, pela igreja recebeu o seu batismo e Angüera foi chamado Generoso.

A conversão do Angüera irrompeu luas e sóis que alumbraram sua testa e o espírito do Generoso volveu para alegria, música, dança e festa.

Desde então, prestativo e jovial, o Generoso, com disposição grongueira e alma cristã, espargiu seu cabedal na formação da querência missioneira.

Sua energia aliada à coragem serviu de guia aos padres em suas ações, apontou rumos pelas trilhas da paisagem na construção dos Sete Povos das Missões.

Tocou a vida, prazenteiro e venturoso, sempre solícito ao chamado da missão, até que velho, um dia, o Generoso, chamou o jesuíta p'ra última confissão.

Seus olhos vivos acobertados de luz, resplandeciam uma vida em prazimento, na sua fronte recebeu o sinal da cruz e o seu corpo, generoso sacramento.

Luzente aura de energia envolveu o corpo índio que mantinha a altivez, o Generoso, que cristão se converteu, voltou a ser Angüera outra vez.

E nas Missões sua alma ainda retouça pelos galpões, em sapateios e risadas, com sopro leve, erguendo as saias das moças ou sussurrando sua marca registrada:

Eu me chamo Generoso, morador de Pirapó, gosto de dançar com as moças nos bailes, de paletó"