O Lado Escuro da Sombra
O lado escuro da sombra É o mais escuro dos lados... Transita em meio ao que é certo Mas vive mesmo do errado! De todos, sabe os segredos, Mantendo os seus bem guardados; Sorri e conforta os amigos, Mas nunca revela o inimigo Que traz no abraço apertado...
É lâmina sempre afiada E cortante em seus dois lados. “Coureia” sempre a seu gosto E no que for do seu agrado; Tem duas faces também Num vil rosto mascarado, E se insiste em querer bem Traz em si, o que poucos veem: Os anseios de um mal velado...
Conhece as voltas da estrada E onde é mais fundo o passo; Sabe das curvas dos rios, Jamais se entrega ao cansaço! Não crê em azar ou em sorte, Sabe medir bem seus passos... Tem um jeito acolhedor Para depois, espalhar a dor E conquistar o seu espaço.
Ostenta suas vestes cultas Pra se fazer respeitado... Ora a Deus, tem religião, Mas se compraz no pecado! Quase sempre lava as mãos E se faz mais enlameado; Qual Pilatos, inconsequente, Que, em conivência inclemente, Fez Cristo Deus crucificado !
Mas também usa trajes rotos E se disfarça na humildade! Condena o orgulho nos outros Do alto de suas vaidades! Em oratória, divide o pão
Mas não é essa a realidade. Por egoísta e ganancioso, De instinto frio e malicioso, Desfaz da solidariedade...
O lado escuro da sombra Não alenta homem ou gado... É sempre tocaia do alheio Sem se fazer de rogado. Almeja tropas e sonhos Que não lhe cabem cuidados... Seja em cidade ou no campo Nem candeeiro ou pirilampo Clareia o breu desse lado...
E assim, por ser tão escuro, Nem mesmo é o oposto do claro... Por igual, difere da sombra,
E muitos se quedam enganados. Mente ser justo e ter honra Num engodo não muito raro; Se faz de luzeiro menino Mas é só um soturno ladino, Cobrando seu preço muy caro!
Qual carancho impiedoso Nos céus de campos dobrados Revoa em sonhos despertos Pousa, sem ser convidado... Ronda com garras certeiras E faz valer seu mandado! Não sobrevive o “cordeiro” Se este lado – sorrateiro - Da luz, encontrá-lo apartado...
Não aprecia cantos de galo Pouco lhe importa o arrebol! Não sabe das noites claras Não quer a lua – não ama o sol... É simplesmente escura sombra A destilar veneno e fel! E quando o inferno lhe abraça E quando mais acha graça Pra ele tirando o chapéu!
O lado escuro da sombra É ardiloso e tem cuidado Pra conseguir o que deseja E seduzir desavisados! Se nem pimenteira viceja, se o sal se faz empedrado... Já é hora de abrir o olho E pôr as barbas de molho E com arruda buscar resguardo!
Em seu espelho distorcido Visa a imagem que lhe agrada... Não nota as chagas da alma, A escuridão não lhe diz nada. Sempre encontrando motivos Que justifiquem sua jornada. Jamais anda em linha reta E deixa portas entreabertas Para a mentira ter cruzada...
Se perpetua – soberano - Onde a claridade não vinga... Ao ferir com seus tormentos Ri de quem lambe as feridas! Sua carne só verá cortes Para salvar a própria vida. Alguém com a fé abalada Sangra ao se fazer morada Das maldades que ele abriga...
Vive nas quatro estações... O mundo lhe é tão pequeno! Na primavera está no espinho Para alimentar o medo! No verão é sol que escalda E frio que fere no inverno! Muitos envergam no outono Mas ele mantém seu entono Pois é o mal em puro “cerno”....
O mais escuros dos lados Está presente em todos nós! Sonhando em ser alimentado Pra libertar-se em forma atroz... É inofensivo, se hibernando, Mas, se desperto, impõe a voz! Quem, enfim, ouvir a besta, Nem com reza ou promessas Será liberto dos seus nós...
Ah, o lado escuro da sombra... Por certo, me habita este lado! Mas vivo de espírito alerta, Num “quadrante” iluminado. Sei que a hora é sempre incerta E o momento, bem complicado... Só de pensar, já me assombra, Que o lado escuro da sombra Possa em mim ser acordado...