Alma em Verso
Poesia

Me Arreneguei

Caine Teixeira Garcia

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Me arreneguei... e "rasguei a poesia"! Não era eu naquela folha... ...quiçá, meus sonhos... por entre as linhas. Eu até tentei ser tudo aquilo, mas, quando dei por mim, já não podia...

Não era eu naquele pingo tosado bem a capricho... Nem era meu aquele cusco campeando a sombra do estrivo... Não, definitivamente, não era eu!

Não me reconheci, bem enforquilhado... E aquelas mãos, tão calejadas, me causaram estranheza! De pronto, o papel foi rasgado, e a poesia, em pedaços - coitada se esparramou sobre a mesa...

Naquele momento, entendi: Não havia mais como prosseguir, pois me pareceu que escrever e criar cenas e cenários sobre o que não mais hei de ser seria simplesmente mentir...

Ainda que exista certa liberdade Para os caminhos de um poema seria faltar com a verdade inventar, assim, uma realidade que, com certeza, já não vivo... embora a dor e a saudade sobrevivam em minhas penas....

Aquele laço tão campeiro - feito do melhor couro havido e tão bem atado nos tentos se desprendeu pelo espaço só prá enlaçar sofrimentos... Pois que abandone os alfarrabos prá descansar - sem mais ser lembrado no chão duro do esquecimento... Escrever sobre um doze braças, Que laça somente quimeras? Cortar o rastro de um turuno - destes "reiúno", sem costeio que só no verso atropela? Como então, parar um rodeio sem cruzar várzea e cancelas? Se a vida planta negaceios A alma colhe as mazelas...

Ah, este lugar em que moro não é um rancho em sapê... E fica aqui na cidade, aonde, prá bem dizer a verdade, quase não vejo o sol nascer... Esporas, só numa parede... Onde ousei deixar de enfeite - a contragosto da mulher Pois mesmo triste, é um deleite Saber que um dia, fui "gente" E soube sim, usar os "talher"...

Mas hoje eu me arreneguei... E rasguei a poesia! Querer, eu até não queria... Mas, quando percebi, Não mais teve jeito... "Tava" feita a judiaria!

...quando saí do meu mundo vendi uma pontinha de gado que tinha, lá na Bolena... Vendi gaiota e os aperos, mas deixei meu cusco ovelheiro junto com o zaino bragado... Estes, ficaram prá meu pai! Talvez, um quinhão de dor, mas era prá ser um regalo e não uma tristeza a mais...

Desde então, não há surpresas... Não sei se vivo de saudade - ou se morri no passado! Sei que a vida não é a mesma... O meu velho ficou arrasado quando eu deixei lá fora, toda a constância que há na ausência.... Ficaram, em minha querência, Sesmarias de sonhos - e de dor... E a minha própria alma em flor sentenciada a viver presa!

Vivo a pintar matizes Que não existem em minha vida Pois só o preto e branco dos tempos É que habitam os meus dias...

Não há ponchos pingando água Nem mate gordo, frente ao fogão... ...há uma varanda, abrigando nada! E nela, uma linda sacada.. Eternamente voltada para as várias faces da solidão...

Não há um rio para cruzar tropas, com valentia, a bolapé! Há uma ponte - que o olhar me corta, mostrando a vida, como ela é... Um grande terço de penas e algum resquício de fé!

O abajur não é um candeeiro nem um luzeiro, prá quem retorna... O meu cigarro, não é um palheiro desses, bem buenos... da palha grossa... Nem o lugar tem o aroma, o cheiro que só o campo nos proporciona! Eu que dormi, sob lua e cruzeiro, Hoje, no frio urbano da cama rumino vida e insônia...

Não, não era eu naquela folha. Pode até que tenha sido... Mas não mais, isso eu sei! Por isso, me arreneguei E rasguei o que havia escrito...

Eu pensei que ia voltar... Mas não voltei! Tinha coisas prá falar, mas... Não falei! Vivo a ausência de abraços daqueles - e daquilo que pouco ou nada abracei...

Lembro o olhar de minha mãezinha Quando soube que eu queria Estudar mais...e ser doutor! Era um misto de alegria Com uma tristeza daninha Envolta em lágrimas de amor... E seus conselhos foram tão sábios! Parece que ainda vejo aqueles lábios Me dizendo, com doçura, permeada por firmeza: - meu filho, segue o teu rumo e ouve bem tua razão... Só não esquece, que na vida Dos motivos mais profundos - e das coisas de mais valia Quem sabe mesmo, é o coração...

...a mesma estrada que leva tem em si, os caminhos da volta...

Mas não...não no meu caso... Não para um teimoso! Que um dia partiu, todo garboso Prá principiar seu ocaso...

Enfim... e por fim, rasguei mesmo a poesia... e ao rasga-la, me fiz réu confesso! Sempre fui eu no poema... Um "eu" não realizado De corpo e alma, cansados De tanta vida vazia...

Eu sei que amanhã - novamente Irei ficar frente a frente Com a tão malvada poesia - sangrando pena e papel.. Pois sendo ela imortal Trás seu traço sem igual: De renascer todo dia Qual lua e sol - lá no céu....