Lanceiro, Negro e Guerreiro
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Aquele 31 de agosto se faz vivo até hoje em minha memória.
“Negro que é macho, vem comigo sem questionar”. -As palavras do coronel despertaram meu instinto valente- E eu, que nunca froxei o garrão, segui o capitão me despedindo do pago.
Lembro bem... As armas que me deram: uma lança remendada, e uma boleadeira judiada.
A revolução seguia firme em seu trote. Já era o terceiro ano a fio que os farroupilhas peleavam com sua bravura, sem igual... ...e os imperiais com a persistência... Uma guerra de bagual.
Fui lanceiro, Fui valente!!
Se hoje esta gente ainda tem chão, é porque nunca nos entregamos pra peleia, mesmo quando os ferimentos iam piorando com o tempo.
Quanta dor ao lembrar aquela cena:
Os “das armas de fogo” viam suas munições escassear. Enquanto pro’s “da cavalaria” faltava o verde pasto para seus cavalos, e os nossos alimentos, pouco a pouco sumiam.
Nove anos de batalhas no lombo!!! Pra defender esta terra do Sul do Brasil.
Chegou então 1844, numa noite amaldiçoada alguns peões foram ordenados à desarma. O alvo eram os lanceiros negros!
Quanta covardia dentro de um ser! Será que essa gente não é boa o suficiente pra encarar a empreitada? Mas um dia esse povo há de ter consciência... eu hey de ver minha raça sendo tratada igualmente a todos na sociedade.
Em 45, alguns sobreviventes. Por nós seguíamos lutando até a morte. Mas quem estava no comando, pelo bem, -pela tal da estratégia- Decidiu não arriscar a sorte e o “PONCHE VERDE” foi assinado.
Muitos anos se passaram deste feito... E hoje, 168 anos depois, assisto a pior das cenas! O mundo, já não vê minha presença, mas meus irmãos, filhos e netos, seguem sendo alvos de preconceito.
Será mesmo que a cor de um ser, passou a ter o mesmo valor de um estado? Sim, porque eu sempre fui à guerra em busca de um território, de um ideal, jamais empunhei minha lança, por algum motivo banal.
Tamanha é minha decepção... Frente a uma nação que tenta cada vez mais se aproveitar do irmão.
Se este negro velho, pudesse voltar a ter vida teria um único pedido a fazer: Que tratem com respeito quem, pelo pago, deu a vida na revolução.
Lembro-me com orgulho daquele momento em que -os poucos- voltavam pro povoado.
O capitão satisfeito por não termos nos entregado, jamais, com seu jeitão, sempre no entono, olhava um por um dos seus combatentes... com o olho brilhando e sem dizer nada, fez o maior agradecimento que já recebi.
E nós, voltamos pra lida, ainda com o prazer de poder matear, mas, o cevador do mate desta vez, é aquele, que todos dão glória , lá em cima do altar!