Alma em Verso
Poesia

Boca da noite

Antônio Augusto Ferreira

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Recém na boca da noite começa meu devaneio, um banco é meu aposento, um mate e nenhuma pressa, vida lerda vai passando na volta dessa preguiça. Desencilhados cavalos levaram água no lombo, virar'o mundo de patas se rebolcando na grama, agora descem à sanga beber um resto de dia. O pessoal depois do banho meteu-se na roupa limpa e busca a frente da casa pra roda de chimarrão. Pode haver hora mais linda? No rádio, um declamador conta a história duma china que olhava de relancina mas tinha travas no olhar. Depois, uns versos de amor daqueles do Mano Lima. Bonito são as conversas, os comentários da lida que, entre relatos e chistes, fazem a escrita do dia: "Mas quase que o colorado perde o couro das virilhas, se fazendo de aporreado. - E aquele touro bragado se empacou dentro do valo... Se não meto meu cavalo decerto tinha ficado!" Um ronco muda o assunto: são tratores, no vizinho, fazendo a terra do arroz. Engraçado nosso Deus, no meio de tanto cerro fez esse plaino, tão plaino, feito fundo de panela que, olhando agora, lavrado, parece vermelho-zaino. O guará do tremedal não gostou do movimento, escapuliu da lavoura para o cerro da tapera. Agora, de tardezinha, solta quatro ou cinco guinchos que são agudos relinchos com seu recado de fera. Toda a estância se arrepia no presságio desse grito, o gado se move, aflito, as éguas buscam a cria. O principal dos cachorros responde um uivo medonho, um uivo longo, redondo, que faz a volta nos morros, enchendo o pago de susto nessa hora, sol se pondo. Me desligo do ambiente, esqueço o mundo na volta, tou junto, mas ando longe, coração sobressaltado que espera um certo pecado meio tratado pra hoje. Solidão é quando a gente tem um gesto de carinho e esse gesto é que nos gasta. Quem ficou de vir, não veio, (foi palavra inconveniente). Solidão tem suas crises quando o amor meio se afasta. O pessoal, chegando a noite, aos poucos se recolheu. Fico de novo sozinho a lidar com meus silêncios quando serena na rua. Há um sapo chorando chuva e uma porfia de grilos. Saúdo então com meu mate a noite que continua, que há um derrame de lua no melhor dos seus estilos.