Alma em Verso
Poesia

Trindade

Bianca Bergmann

Publicado em

"Em nome do Pai... Do filho e do Espírito Santo. Amém."

Me perdoem por favor Se adentrei em vossa casa Com meus pés sujos de barro! Esta chovendo lá fora... O sino avisou da hora. É minha noite de ronda... Só agora me dei conta, Da minha roupa rasgada... Me vim correndo na estrada E nem lhes trouxe um regalo!

E perdoem por favor A minha falta de jeito. Vou tentar falar direito... Tentar domar as palavras, Pra expressar em frases mansas Tudo que venho dizer!

Não pretendo disfarçar... Dissimular... Nem tão pouco me fazer de santo! Tenho um lote de pecados Que somados entre eles, Talvez sejam mais pesados Que as virtudes que sobraram.

Mesmo assim criei coragem, Pra adentrar em vossa casa E pedir humildemente O antecipado perdão.

Sempre fui um homem bom! Filho obediente... Esmerado... Fui marido dedicado, Constantemente em vigília... Fui um bom pai de família E até hoje um bom soldado!

Porém em tempos de guerra Os valores se confundem... Confesso que até me perco Entre o que é certo e errado.

É um assombro desgraçado, Que assola o pensamento... É o fantasma de um tormento Cercando o corpo e a alma!

Ah! Me desculpem novamente! Falei mais do que eu queria! Não foi falta de respeito, Mas minha boca sem jeito Perde o freio pelo mundo... Quando vejo, em um segundo, Já falei mais que eu devia!

Deus do céu quanta loucura! Como posso estar aqui, Pedindo perdão por algo Que ainda nem cometi?

Como posso fazer preces pelas almas dos irmãos... Com um talabarte no peito E uma arma nas mãos?

Quanta agonia! Nem eu sei de onde brota Esta ousadia tamanha! Talvez sejam pelas cenas Que assisti hoje cedo, Despacito percorrendo Um hospital de campanha...

Vi homens fortes chorando Soltando gritos a esmo... Vi três soldados gigantes Podados pelos joelhos... Ouvi soluços de dor, Por sonhos despedaçados... Feras sem braços, nem pernas, Feito fantoches quebrados...

Foi ai que descobri... Eu não sirvo pra essa lida! E não vou vazar a vida De ninguém em meio a chuva! Não vou fabricar viúvas, Nem deixar mães na saudade, Pra não jorrar sangue alheio Sobre o meu nome... TRINDADE!

Trindade... É assim que nós chamamos vossa família sagrada! E é assim que pela estrada, me conhecem pampa afora...

Enfim é chegada a hora De expressar minha decisão...

Sempre fui um homem bom! Filho obediente... Esmerado... Fui marido dedicado, Constantemente em vigília... Fui um bom pai de família, Mas não nasci pra ser soldado!

Não quero ser desertor... Só me resta uma saída... Por minhas mãos, Minha vida será entregue esta noite... Forjando minha própria sorte...

Meu esperado perdão, Não sei se vira ou não, Mas espero mesmo assim.

Por minhas mãos o meu fim... No véu escuro do inverno. Não sei se mereço o céu... Mas não pertenço a este inferno!