Sob a Luz do Entardecer
A canção da saparia vem acordar o silêncio Que adormecido pousava nos confins desses rincões Ao findar a lida, os peões voltam pro rancho A bicharada ao tranquito se recolhe nos galpões E a gurizada teimosa abre carreira correndo Quando a mãe se pega aos gritos pra que saiam do sereno
E eu novamente aqui... Por mais um dia contemplando o sol Que mergulha calmamente no mar azul da imensidão. Quisera ser pescador nesse instante pra lhe jogar um anzol Fisgar e puxar com força pra ele voltar pro céu Não gosto do entardecer, pois ele me traz lembranças E lembranças são amargas a quem não resta esperança
Como pode um cenário mudar tanto e tão completamente? Perder o sentido pra gente que outrora tão bem lhe quis Eu muito cantei pro sol nos tempos de antigamente Pois os meus olhos tão tolos, sonhavam me ver feliz Mas ser feliz não é tudo, eu fui e nada adiantou Pois hoje se faz doída, essa saudade bandida que restou
A canção da saparia vai se estendendo nas horas Sob a luz do entardecer sinto que saio de mim Te procuro pelos campos e adentro a noite morna Pra comprovar outra vez, que tudo que é bom tem fim Final... Sem final feliz, disso eu sei, não tem mais jeito O problema é convencer o amor que mora no peito
Como explicar pra saudade, que tu não vais mais voltar? Como explicar pro teu pingo que ele hoje tem outro dono? Como explicar para a lágrima que ela não pode rolar? Como viver um verão, se em minha alma é outono? Se sonhos caem de mim como folhas amarelas e já sem vida no chão Pois não se firmam nos galhos da arvore seca que sou
Não gosto do entardecer, porque me lembro de ti... Porque me deixaste aqui? Tu não tinhas o direito! Plantar amor em meu peito, e simplesmente fugir Morrer... sem se despedir, foi teu único defeito Mas foi o maior de todos e este não tem perdão Pois não cumpristes as juras que me fez teu coração
De nunca me abandonar, jamais me deixar sozinha E agora a vida madrinha me presenteia dois filhos Que vão crescendo em meu ventre como um verso e uma rima Um poema inacabado que eu herdei dos teus carinhos Eles seguirão comigo e pela estrada que se vai Vou pensando o que dizer se perguntarem do pai
Talvez eu conte a verdade, talvez eu minta... quem sabe?! Escolherei a verdade menos sofrida pra eles Pois se eu disser que partiu, vão perguntar da guitarra Que ainda te espera na sala, emudecida na parede... Eles verão o teu poncho, teus arreios, teus avios Nisso nem quero pensar, pois me causam arrepios
Sob a luz do entardecer vou remoendo meus medos A voz do vento sussurra, o tempo me pede calma A canção da saparia já orquestrou meu segredos Agora volta o silêncio pra noite escura da alma O sol se foi no horizonte, desceu um véu estrelado E eu aqui, como página de um romance inacabado
Me perdoa meu amor, se não perdôo a partida Mas a dor da despedida seria menos latente Do que o vazio que deixaste invadindo minha vida Em cada ausência sentida por meu coração doente Sob a luz do entardecer eu busco os olhos teus Volta em meus sonhos... me assombra...
Mas volta... E me diz adeus!!!