A VISITA
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Nessas horas de saudade, Quando o vento cerca o rancho com seus passos de surdina... O inverno se aproxima, pra me dar um “Oh de casa!” E anunciar que esta noite será de forte geada.
Tenta não fazer barulho, mas grita sem perceber; Me chamando a contemplar sua mágica beleza; E desperta essa tristeza de sono leve que trago.
Pelos cenários... Paisagens... Imagens de mil lembranças, Das antigas esperanças, antigos sonhos, de tudo... Tudo que havia no mundo ao qual não pertenço mais.
Vou recriando na mente a velha casa da infância. Volto no fundo do tempo e a reconstruo aos pouquinhos. Pregando as tábuas azuis... Sentando o piso alternado... Depois coloco a mobília, com três camas lado a lado.
Trago a lavoura de milho... O pé de caqui dos fundos... Trago as duas laranjeiras, O abacateiro também; Ressuscito a caturrita, que canta um “lararará” E sempre encerra a folia mandando um cusco deitar...
Falando em cusco, meu Deus! Tenho o guaipeca de volta! Acuando, fazendo troça do pobre gato ladrão. E assustando as visitas no costado do galpão.
Ah! Como eram bons esses tempos! Sempre choro quando lembro.
Pelas tardes de garoa, Sempre tinha arroz de leite cozinhando no fogão... Que por tirar nota boa, era minha compensação...
Uma vó me fazia as vontades, a outra imitava ela... E eu sempre enrolava as duas, mostrando todos os dentes, Pra comer o arroz de leite, quente... Ainda na panela!
Que saudade!
Pelos domingos então, churrasco na casa do vô. Nunca outro compromisso! Ver os primos... Correr riscos, Pra subir no muro alto (que hoje bate na cintura); Mas tudo era aventura nitidamente visível... Quase conquista impossível aos “meio metro” de altura.
O pai trabalhando sempre... A mãe fazendo ambrosia... O mano fazendo arte E eu?! Eu fazia tanta coisa! Porém tudo que eu gostava, A idade me roubava, ou no tempo se perdia.
Foi assim com as bonecas... Os bambolês... Os diários... Os bilboquês... Os canários... E com as cinco marias. Só me restou desses dias estas lembranças que trago... E uma tristeza bonita! Buscando dias iguais.
Sinto saudade de tudo... Tudo que havia no mundo ao qual não pertenço mais!
O Vô partiu esses tempos, rumou pra estância do céu. Virou chuva nos meus olhos, poesias no papel...
E nessa noite a magia trouxe um alento à verdade. Quando a imensa saudade brotou no peito de manso, Senti no rosto o afago de uma mão velha... Invisível... De doçura inconfundível, trazendo paz entre as lágrimas.
E um som se achegou do nada, entre os silêncios da noite... Transcendendo o próprio tempo, uma voz mansa me fala...
“- NÃO CHORA FILHA! SEGUISTE OUTRO CAMINHO. COLHESTE FLORES E ESPINHOS E UM NOVO RUMO ENCONTRASTE! MAS CONSERVASTE TEU MUNDO... SUBLIME E CHEIO DE ENCANTOS; POR ISSO DE VEZ EM QUANDO TE VISITO PELOS SONHOS, PRA GARANTIR QUE TEUS OLHOS SEJAM PLENOS DE ESPERANÇA... AQUI DE CIMA TE CUIDO! FICA EM PAZ MINHA CRIANÇA!”
Nesse momento me perco, pois foi tudo tão real! A sensação sem igual de paz, conforto e carinho, Vem me ensinar que o caminho não se limita às estradas.
Vou dormir, é madrugada! Mas sem tristeza ou saudade, Porque a minha verdade trago comigo guardada.
Amanhã verei geada, Mas frio? Ah! Frio já não cabe em meu peito!
Pois aqui tenho de sobra muita lenha no fogão... Arroz de leite quentinho, carinho de vó e mãe... E amanhã bem cedinho corro aos pés do abacateiro, Pra semear meu canteiro de doçura e esperança...
Assim volto a ser criança! (Bem mais crescida é verdade!) Mas ao partir a saudade, rumo ao abismo profundo Voltarei ao novo mundo, Deixando as portas abertas, pra voltar quando quiser...
Quem sabe assim me convenço E paro com essas besteiras, de que não pertenço mais... Não pertenço mais por quê? Se o mundo é MEU! Ora pois!