AQUELAS MÃOS - Guilherme Collares
19º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Feito a raiz que estende ramos, As mãos, nervuradas e duras, Cortadas por veias azuis, Corriam como rios Num mapa cor de luar.
De baixo da manga do punho esquerdo, O lenço branco de conter lágrimas Passeava sob os óculos de aro negro, Contrastando com o olhar azul violeta.
Aquelas mãos... Que entendiam de ninar filhos e netos, Cantando carícias de antigas melodias De rondar tropas e vigílias carreteiras, Recuerdo de outros tempos e lugares.
Aquelas pobres mãos descarnadas Conheciam de bordados e agulhas... E rendas de bilro.
E remendos em bombachas e camisas, Renovando casas e botões, Aprontando enxovais e costurando colchões. E mesmo o triste augúrio das mortalhas Que nasciam como antítese ao final.
Aquelas mãos descascavam marmelos, Que depois da cosedura eram moídos... E a pasta, misturada com açúcar, O tacho terminava de compor. Aquelas mãos que volviam carne viva Da colheita e preparo das figadas, Maculadas de amor e obrigação. Aquelas mãos...
As mesmas mãos que, um dia, Foram fortes e soberbas E acariciaram o peito e os cabelos Do homem que lhe foi predestinado. Os mesmos cabelos alisados Na despedida funeral de um qualquer dia, Negreando as contas do terço Enroladas contra o alvo da tristeza.
Assim como as despedidas, Eram aquelas mãos Resignadas e conformes. Em seus gestos, naturais e comedidas, Por mais necessária se fizesse a reação.
Feito pássaros, Voavam livres ao contar os causos, Desenhando o passado aos olhos curiosos De tanta gente que lhe conhecia a voz.
Como algo tão frágil na aparência Continha tanta força? Como alicerçavam toda uma família Com a simples menção de um manifesto?
Quase sinto aquela seda De seus dedos em meu rosto. Quase entendo aquela alvura Perpassando meus cabelos, Enquanto sua voz, cálida e branda, Desenhava histórias antigas De antepassados e parentes.
Como aquelas mãos me fazem falta, Desde o tempo imemorial de uma saudade.
As mãos da minha avó...
Aquelas mãos.