Quero-Quero
Nem que se passe a lo largo Longito do retalho do banhado Onde é teu chão. Nem assim... Logo ficas assanhado, bichinho mal-educado, quero-quero querendão!
Nem que se passe a lo largo, nem assim... Logo no mais te alvorotas e os teus gritos lembram as notas vivarachas de um clarim.
Afiado como ferro de faca bem chairada, teu grito repassado de insistência, de alerta e de aflição, acorda os velhos ecos da querência que dormem no silêncio das taperas, como dormem os recuerdos de outros eras nas ruínas de certos corações.
Há no teu grito, bichinho pedichão, a ânsia insatisfeita de um pedido, a cada novo grito repetido e sempre sem resposta, sempre em vão!
Que mais tu queres, quero-quero louco? Achas quem sabe que o que tens é pouco, bichinho gritador? Não basta essa fralda de coxilha onse se aviva o verde da flechilha na aquarela dos bibis em flor?
Tens o banhado, a grama seca pra fazer o ninho, e este horizonte largo, encoxilhado, por onde o sol se embreta, enciumado, quando a estrela boieira pisca o olho pra noite que vem vindo logo ali...
E tens a liberdade, quero-quero, o infinito das coxilhas rasas sob o capricho de teu par de asas armadas de ferrão.
Que mais tu queres, quero-quero triste, que mais te falta para ser feliz? Por que ainda neste grito insistes se ninguém sabe o que este grito diz?
Parceiro, o coração que a gente tem no peito -não ria se eu lhe disser – é um outro quero-quero insatisfeito que nunca sabe o que quer...