Palavra e Cruz
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Escolho por chamar-te Nazareno para falar contigo frente a frente. Aliás, como sempre faço, quando cruzas nos dezembros de sóis à porta do meu rancho e antes do Ó de casa! eu te convido: -Apeia!
Há em ti um quê de amargas mágoas -caraguatás de banhado a te arranharem. E sei, embora bruto, bicho do campo que sou, travestido de homem, de que raiz brota a tristeza que pressinto no azul-lagoa de teus olhos mansos.
É que passas cada dia a minha vista, a pouca braças dos portais do rancho frenteando a estrada que te leva e traz. E apenas uma vez em cada ano -no dia de Natal - eu te convido para um mate breve cevado pela mão da companheira.
E falamos tão pouco, Nazareno, mais por silêncios do que por palavras! E nelas, nas escassas que te brotam no coração para os lábios, como um sopro, me conta que vem mermando teu rebanho -ano após ano - e cada vez menos amigos te convidam na voz fraterna do Apeie! Passe adiante!
E dizes que ao contrário de outros tempos -longínquos como a Estrela que te guia - a tua marca de campeiro pobre -a mais simples das marcas, uma Cruz - quando surge do íntimo dos homens é para luzir em metal sobre seus peitos, símbolos de vaidade e não de fé. Volta-me a cuia e tua voz me volta:
"Esses que a usam sobre suas véstias não a levam pela Cruz, mas pelo adorno. São eles meus cordeiros desgarrados do rebanho que foi grande em outras eras, apascentando em largas sesmarias de aguadas frescas e trevais em flor, -hoje um potreiro de guachos desmamados que ainda creem no caminho que assinalo com meu cajado de irmão e de pastor."
Um mate para o estribo. Tua mão leve me abençoa. Teu sorriso de triste e tu na estrada ao tranco viajeiro de um burrinho no rumo encandescido do poente.
Cada vez mais pequeno o Nazareno. De longe, o seu aceno: o pala branco, a asa de um adeus.
Minha cruz de couro-cru sob a camisa dói-me na pele, me constrange o tordo. Arranco-a do peito, num tirão. -Cordeiro desgarrado não tem marca!
Meu grito é como um chumbo de garrucha.
Alto, o azul-escuro rompe-se a seu eco e dos flecos do poente a estrela Vésper desce do céu e pousa-me na mão.