ORAÇÃO E CONTRA-ORAÇÃO AO NEGRO DO PASTOREIO
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Negrinho do Pastoreio, afilhado da Senhora Mãe de Deus Nosso Senhor! Não te vejo nem te escuto nesse sem-fim cor de luto que se chama escuridão. Mas os teus olhos, Negrinho, percebem meus movimentos e os teus ouvidos atentos recolhem a minha oração.
Negrinho, no fim do mês, no que eu bote a mão nos pila dessa tropeada de abril, eu vou comprar sete velas na venda do Geromil. E acenderei todas elas, - cada vela num moirão - e esperarei sete dias pela tua intercessão.
Porque eu ando precisando da tua ajuda, Negrinho. Tu te lembra da Maria que eu levantei na garupa lá por volta de dezembro do ano que já passou? Pode ser que tu não lembre... Mas eu nunca me deslembro da china boba Maria que um mascate carregou... Que um mascate carregou!
Eu não tenho raiva dela... Pois não vê que essa chinoca sempre foi meio boboca, muito fácil de levar. Meu avô sempre dizia que mulher não se perdoa, mas eu tenho a alma boa, sei esquecer e perdoar.
Eu não tenho raiva dela... Tenho raiva é desse cuera que batendo no meu rancho - com parada de carancho, mentiroso e pacholão - se valeu de minha ausência pra levantar com a Maria no rumo doutra querência, sabe Deus pra que rincão!
Negrinho do Pastoreio, é a Maria que eu procuro já meio falho de fé. Eu sei que sendo piá pouco entendes de mulheres que se vão ao deus-dará. Faz porém o que puderes por esse rabo de saia que por sinal é tocaia da tua Santa Madrinha - madrinha dos que a não têm - tocaia ao menos no nome porque é Maria também...
Vou acender sete velas - cada vela num moirão - e esperarei sete dias pela tua intercessão.
Mas se no sétimo dia a china boba Maria não voltar pelo seu pé, nunca mais, Negrinho maula, te darei tenência ou fé!
Vou acender sete velas - cada vela num moirão - e esperarei sete dias pela tua intercessão.
Mas se no sétimo dia a china boba Maria não cruzar esta cancela, aonde a sétima vela brilhar a sétima luz, juro por tua Madrinha: - cravo a faca na bainha no arremedo de uma cruz!
Mudo de nome, Negrinho, se este arremedo de cruz não for cruz na cova rasa, nos sete palmos de chão, onde as tuas sete velas vão servir de sentinelas pr'esse nascate ladrão!