Carreta
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Recavém , chedas , cadeias, tablado de duas braças, raios, cambotas e maças de guajuvira ou de ipê chapa de ferro batido, pra tolda couro estendido, lata ou capim santa-fé .
Pra canga açoita-cavalo, para os cambões guajuvira de pitangueira se tira canzis fortes e buenachos. Pau-ferro lasca por nada, por isso é mais indicada canela para os muchachos .
Pra escolher o pau pro eixo é preciso alguma ciência guabiju tem resistência, mas o melhor é alecrim. Ipê é para o trabalho, serve bem pro cabeçalho quando não há camboim .
Bois de força para o coice, pra ponta bois de confiança e pra maior segurança na quarta os passarinheiros. Nunca esquecendo a guilhada pra cutucar a boiada na lomba e nos atoleiros .
Cordas, tamoeiros e brochas pro serviço e pra reserva, dois ou três quilos de erva, charque a lã farta e feijão; panela, trempe e cambona, e uma garrucha machona pra um caso de precisão !
"Pronto a carreta patrício, bombeie só que capricho! tem mais valor que um bolicho equipada como está. Hoje no mais, se Deus queira, se vamo erguendo poeira Pras bandas do Caverá !"
Rude carreta de bois Ano após ano, sem tréguas, tu foste encurtando léguas do interior ao litoral . Tomando, a cada viagem, um pouco menos selvagem nosso Rio Grande natal.
Nessa ronda ambulatória sob chuvas e manotaços, gravaste os primeiros traços de nossa carta geral . O mais primitivo esboço do antigo Rio Grande moço, pai do Rio Grande atual.
Foste a patrulha avançada do batalhão do Progresso Na incerteza do regresso, ao passo lerdo dos bois, apontavas novas rotas e nos rastos das cambotas brotavam vilas, depois...
Tu fazes parte da tropa dos velhos trastes pampeanos, que no rodeio dos anos Pouco a pouco se formou. Custaste muito a entregar-te, mas no último aparte o destino te marcou !
Quando escuto as tuas maças ao peso bruto das cargas gemerem, tristes e amargas, como quem chora demais, sem querer as imagino carpideiras do destino chorando em teus funerais
Velha carreta esquecida, desengonçada e capenga , foste a maior andarenga que o Rio Grande conheceu. Quase a ninguém hoje importas, no museu das coisas mortas o Progresso te esqueceu!